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segunda-feira, 14 de julho de 2014

A Tarde e a Construção dos Sentidos: ideologia e política (1928-1931)


FERREIRA, Maria do Socorro Soares. A Tarde e a Construção dos Sentidos: ideologia e política (1928 – 1931). Salvador: UFBA, 2002, 125P.





                                                                                             Wagner Aragão Teles dos Santos 1



Desde o surgimento da imprensa brasileira em 1808, com a circulação dos primeiros números do periódico Correio Braziliense, feito em Londres e idealizado por Hipólito da Costa, que a imprensa brasileira vem fazendo o seu papel de grande formador da opinião pública nacional. No entanto, essa ferramenta, ou seja, o jornal, pode ser utilizado para propagação de ideias, com o objetivo de manter o pensamento popular vinculado à ideologia de quem controla esta ferramenta.

Baseando-se na afirmação marxista de que “as ideias dominantes, são, pois, nada mais que a expressão ideal das relações materiais dominantes” (MARX; ENGELS, 1932), vários historiadores vêm ao longo das últimas décadas, analisando o discurso dos periódicos que circularam no Brasil durante os séculos XIX e XX, com o intuito de decifrar os posicionamentos políticos, econômicos e ideológicos dos grupos que controlavam a produção e circulação desses jornais em várias partes do país.

Durante os anos da República Velha, aconteceu uma diversificação na imprensa brasileira. A política começa agora dividir espaço com matérias relacionadas ao discurso de “civilização” do país e da busca do progresso, em meio a uma grande inovação tecnológica, responsável pela melhoria  da qualidade gráfica dos jornais, como também, da diminuição dos custos de produção e consequentemente, do aumento das tiragens destes periódicos (ELEUTÉRIO, M. L, 2012).

Dentro deste contexto, a dissertação de Mestrado de Maria do Socorro Soares Ferreira, é baseada na análise do discurso da linha editorial do Jornal A Tarde. Periódico fundado por Ernesto Simões Filho em 1912.

A partir disto, a autora tenta identificar os posicionamentos políticos, econômicos e ideológicos, tendo como fontes primárias, exclusivamente, as páginas do jornal.

Segundo a autora, o jornal A Tarde, desde sua fundação, sempre esteve ligado a um grupo político na Bahia, sendo base de sustentação e o porta-voz de seus interesses políticos e econômicos no estado, tendo como objetivo, a preservação de seus privilégios.
Dentro desta perspectiva, para analisar e entender o discurso exposto nas páginas do jornal, assim como, compreender as relações políticas existentes na Bahia da primeira metade do século XX, a autora se baseia na noção de poder teorizada por Michel Foucault, que compreende o político como “elemento que tece as mais diversas relações sociais em todos os níveis”. Identificando o poder de uma forma mais ampla e constituída ao longo da história, deslocando assim, as investigações da esfera do estado, ou seja, de algo institucionalizado.

Para compreender as questões ideológicas analisadas pela autora em sua pesquisa, foi utilizado o conceito marxista de ideologia, ampliado pelas análises de Karl Mannheim no qual entende a de ideologia como “estrutura conceitual dos modos de pensar, definidos conforme as diferentes situações de vida dos sujeitos sociais implicados na sua visão de mundo”.

A partir disso, ao ampliar o conceito de ideologia, foi possível identificar, além dos interesses imediatos do grupo político que compunha o Partido Republicano da Bahia (PRB), ligado ao jornal A Tarde, como também, o modo de pensar da elite política e letrada da época.

A autora divide o trabalho em três capítulos, nos quais esclarece posicionamentos sociais, políticos e econômicos distintos de uma elite política baiana, que tinha uma visão de progresso alicerçada no pensamento iluminista, e contraditoriamente, pautada em valores conservadores e racistas, típicos do antigo regime político vigente no país até o século XIX.

No primeiro capítulo, a autora faz uma reconstituição do cenário político baiano no final da República Velha, analisando os interesses políticos do grupo apoiado por Simões Filho e o seu jornal, buscando entender a significação que o jornal A Tarde fazia do posicionamento da Aliança Liberal, liderada por Getúlio Vargas e consequentemente, do “movimento revolucionário de 1930”.

Ao reconstruir o cenário político desta época, percebe-se que o jornal A Tarde, desde sua fundação, período em que Ernesto Simões Filho era aliado de J. J. Seabra, sempre teve uma grande influência na política da Bahia.

Com o enfraquecimento do Partido Republicano Democrata (PRD), e de seu líder J. J. Seabra, no final da Primeira República, emergem duas forças políticas. Uma liderada por Góes Calmom e a outra, liderada por Otávio Mangabeira, aliado de J. J. Seabra até 1919.

Estes grupos, no entanto, se aliam  em 1927 para a fundação do Partido Republicano da Bahia (PRB). Partido que terá os interesses políticos e econômicos de seus membros, defendidos nas páginas  do jornal A Tarde, e que se colocará como uma força política oposta ao seabrismo na Bahia por toda segunda década do século passado.

Maria Ferreira ressalta, porém, que a oposição política no período da Primeira República, não significava divergências ideológicas, e sim, interesses e disputas pelo poder na Bahia, sem resultar em posicionamentos ideológicos distintos. A aliança política na formação do Partido Republicano da Bahia (PRB), em que ex-seabrista, calmonistas e mangabeiristas se unem como força oposicionista, demonstra claramente os interesses deste grupo. “A oposição portanto, era constituída pelos políticos que não estavam no poder, na 'situação', e batalhavam por estar”.

Dentro deste contexto, o jornal A Tarde se coloca como grande oposição à José Joaquim Seabra, aliado de Ernesto Simões Filho até 1913, quando este se desligara do Partido Republicano Conservador (PRC). Segundo a autora, o posicionamento crítico do jornal, diante da imagem decadente de J. J. Seabra, era uma maneira de mostrar o isolamento político do velho oligarca, e que se caracterizava “como fruto da ação cívica dos adversários”.

Para o jornal, Seabra fora um político de desempenho administrativo desastroso e que praticava uma “politicagem vergonhosa”, sendo o culpado de ter tornado a Bahia um “estado sem crédito”. Era chamado diariamente pelo vespertino, de “político antigo”, que dizia “inverdades sem proveito algum” e que não se conformava de ter saído do cenário político. Seabra e seus aliados eram chamados pelo jornal de “mentirosos, interesseiros, incompetentes e ladrões”.

Havia evidentemente, uma clara tentativa de eliminar toda a força política de Seabra no Estado, para que houvesse a manutenção da hegemonia da nova oligarquia política dominante do momento, de que Simões Filho fazia parte, como um dos grandes lideres, e que detinha o poder da informação através das folhas do jornal A Tarde.

Ao investigar o significado da “Revolução de 1930”, a autora identifica uma resistência da elite política baiana em aceitar o “movimento revolucionário”.

A autora explica que apesar da grande parte dos estados do Norte do país terem aderido ao movimento de 1930, a Bahia se manteve resistente, pois a nova hegemonia política liderada pelo Partido Republicano da Bahia, via neste movimento a possibilidade de perda desta hegemonia conquistada nos últimos anos. O grupo liderado por calmonistas e mangabeiristas apoiara  Júlio Prestes à Presidente da República, para as eleições de 1º de maio de 1930, tendo como vice, o candidato baiano e seu aliado político, o ex-seabrista, Vital Henrique Batista Soares. Assim, se mantiveram resistentes quando o “movimento revolucionário estoura em outubro daquele ano.

Durante a campanha eleitoral da Aliança Liberal, liderada por Getúlio Vargas, o jornal A Tarde considerava a candidatura “idealista” e “obra de ficção fadada à morte”. Aderi-la era um ato de “insignificância política. As páginas do periódico, mais uma vez trabalhara a favor do grupo político no qual o seu dono faz parte. Evidenciando o interesse da manutenção do status quo, da elite política dominante.

A Tarde se colocava como grande defensor da “ordem” e da razão, alicerçada na ideologia liberal burguesa, única capaz de “patrocinar o equilíbrio social”. Com o intuído de desqualificar o adversário, o periódico dizia que o liberalismo da Aliança Liberal era “fruto de um programa anarquista”, que visava pôr em risco a segurança das nossas instituições republicanas.

Durante o avanço das forças revolucionárias no sul do país, o jornal se mantinha indiferente, informando aos eleitores que os rumores das vitórias do movimento eram inverídicas, e que os “rebeldes” estavam recuando, na clara tentativa de acalmar a população baiana. Mesmo depois da deflagração do “movimento revolucionário”, o jornal, como porta-voz do grupo político liderado por Otávio Mangabeira, continuava dando sustentação ideológica, ao qualificar o movimento como uma “simples revolta”, que era “raquítica”, “inconstitucional, “sem ideias e sem verdadeiros estadistas”. Assim, o jornal A Tarde tecia a sua visão e seus significados sobre a “revolução de 1930, desqualificando assim o movimento, com o intuito da manutenção do atual grupo político no poder.

No segundo capítulo, Maria Ferreira analisa os matizes ideológicos no discurso do A Tarde diante das representações de alguns sujeitos sociais no final da década de 1920.

Para a autora, o jornal idealizava uma sociedade baseada nos princípios liberais, e se via no papel de “ensinar” a sociedade baiana a seguir aos padrões de “civilização”.

Com desenvolvimento tecnológico a partir da década de 1920, tendo o rádio como catalizador da propagação da informação, as elites políticas e econômicas vêm os meios de comunicação de massa, como ferramenta fundamental para se manterem no poder. Dessa maneira, idealizava-se um modelo contraditório de sociedade progressista, em que a “ordem” e a “moral” era fundamental para o desenvolvimento da sociedade, tendo o discurso  conservador, respaldado em autoridades antigas, em que o padrão de referência era baseado em hábitos do “mundo civilizado”.

O vespertino baiano, via na mudança da estética urbana de Salvador um elemento de progresso e civilidade, em que a eliminação da “feição feia” da cidade, era fundamental para os novos padrões estéticos. Protestava a favor da derrubada da igreja da Sé, pois, segundo seus articulistas, a igreja era considerada um “velho templo” e que a sua derrubada serviria para a realização de um “complexo programa de aformoseamento e higiene” da cidade de Salvador.

Vale relembrar que esse discurso de ordem e de progresso não era exclusividade nem da Bahia, nem muito menos do jornal A Tarde. Os homens que proclamara a República em 1889, se baseavam nesse discurso positivista, necessário, segundo eles, para o desenvolvimento da sociedade brasileira (FAUSTO, B, 2012).

Nesse contexto, A Tarde se reservava ao “papel pedagógico”, acreditando ser também responsável pela educação da população, dentro do conceito de progresso de uma sociedade liberal. Não bastava apenas a mudança física da Bahia, mas também, da “educação do povo da cidade”. Precisava “educar” a população baseada no projeto político e ideológico da oligarquia dominante, pois as “camadas populares” precisavam de “orientações”, necessárias para o bem-estar social.

Apesar de deixar claro que existem “propósitos deliberados e intencionais no ato comunicativo”, que atendem interesses específicos de um grupo, a autora não deixa claro, quais eram os interesses específicos da oligarquia dominante na Bahia, em relação ao discurso progressista e modernizador difundidos nas páginas do jornal. No entanto, ao tratar do imaginário político construído pelo periódico, a autora nos conta que a neutralidade política, era algo inexistente na imprensa baiana, pois, cada grupo jornalistico representava determinado segmento dominante, mas “nunca a totalidade dos interesses da classe dominante”. Sendo assim, o discurso político era alinhado aos interesses de um determinado grupo.

Ao investigar os significados que o jornal fazia sobre o papel da mulher na sociedade, identificou-se um conservadorismo, típico da sociedade machista do seu tempo e menos alinhada com o discurso democrático e liberal, propagado pelas páginas do A Tarde.

A mulher, na primeira metade do século XX, ainda era vista como um ser doce e maternal, sendo encarado com estranheza a inserção da mulher no mundo do trabalho. Para  alguns articulistas do jornal, ainda era muito cedo para as mulheres adquirirem o direito ao voto, pois, dentre outras coisas, havia a possibilidade, a partir da eliminação das desigualdades entre homens e mulheres, da destruição da sociedade e da maternidade. Para a autora, este posicionamento em relação às liberdades da mulher, era típico do liberalismo brasileiro, que repudiava ideias liberais que colocassem em risco valores há tempos constituídos.

Dentro dessa visão liberal conservadora, o jornal fazia representações distintas de negros e índios. Eram tratados como inferiores e incivilizados, demonstrando o desrespeito  à igualdade entre os cidadãos. O descontentamento era explícito, como quando se incomodaram com a aplicação de verbas públicas para atender necessidades indígenas, acreditando não ser correto a aplicação de verbas públicas em projetos relacionados às populações indígenas.

Maria Ferreira explica que o jornal expressava seu posicionamento racista, deixando transparecer sua “crença na hierarquização das raças”, ao menos tempo que pregava, contraditoriamente, a igualdade entre as pessoas.

No terceiro e último capítulo, a autora analisa o discurso do jornal diante dos interesses e problemas econômicos, e de suas possíveis soluções.

O jornal deixava evidente sua insatisfação com a inferioridade material do Brasil em relação a outras potências econômicas. Acreditava na necessidade de mudança na política econômica do país. No entanto, de maneira contraditória, pregava a modernização da produção, através do desenvolvimento tecnológico, ao mesmo tempo que defendia “a velha forma de exploração econômica, ou seja, a agricultura”. Partindo deste princípio, o jornal acreditava que o desenvolvimento tecnológico chegaria aos campos, possibilitando assim, o aumento da produção, e consequentemente, o desenvolvimento do país, resolvendo em grande medida, os nossos problemas econômicos.

Para a autora, os interesses imediatos de uma elite econômica que vivia da exploração agrícola, eram os responsáveis pelo posicionamento do jornal em relação à política econômica a ser adotada.

Alinhado com essa forma de pensar a economia brasileira, onde o setor agrícola é visto como o mais importante, o jornal expusera em 1931, sua preocupação com a vitalidade da agricultura baiana, ao defender a diminuição dos impostos sobre o fumo, assim como fez também, em 1928, ao defender incansavelmente, a intervenção do estado, através de subsídios ao cacau. Demonstrando assim, sua contradição em relação às ideias liberais largamente defendidas em suas páginas.

Ao esclarecer alguns dos significados construídos pela elite política e econômica baiana da primeira metade do século XX, este trabalho deixa claro a necessidade de continuarmos investigando os discursos ideológicos expostos nas páginas dos periódicos que foram produzidos em terras brasílicas desde 1808, por evidenciar os interesses de grupos políticos e econômicos que controlam a informação ao longo dos tempos. Contribuindo também, com as pesquisas que visam analisar estes discursos e interesses, camuflados, em grande medida, na imprensa escrita e televisiva de todo o país.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Cora: lições de comportamento feminino na Bahia do século XIX.



 Reis, Adriana Dantas. Cora: lições de comportamento feminino na Bahia do século XIX. Salvador: FCJA; Centro de Estudos Bahiano da UFBA, 2000.




Wagner Aragão Teles dos Santos[1]


Este é um livro que se debruça sobre os debates relacionados às propostas de educação feminina na Bahia do século XIX. Dividida em 4 partes, a obra analisa as polêmicas geradas pelas Cartas Sobre a Educação de Cora, publicadas na segunda metade do século XIX, que estabelecia novos preceitos para educação da mulher da elite baiana, de acordo com a perspectiva civilizadora, influenciada pelo pensamento iluminista. Nessa perspectiva, a autora tenta entender o porquê do desencadeamento dessas polêmicas entre os homens letrados da Bahia. Na introdução do livro, a autora expõe as inúmeras fontes utilizadas e os arquivos visitados durante a pesquisa, evidenciando assim, o exaustivo trabalho realizado e todo seu rigor metodológico.
No primeiro capítulo, a autora tem como objetivo, retratar os espaços sociais ocupados pela mulher da elite feminina baiana antes e depois da chegada da Família Real em 1808. Analisado assim, a partir do olhar dos viajantes europeus, o contraste dos costumes femininos em Salvador, comparados com os das mulheres da Europa.
A partir dessa análise, a autora percebe que antes da chegada da Corte portuguesa, os espaços lúdicos para as mulheres da elite baiana eram limitados, basicamente, às festas religiosas. Como também, apesar de serem influenciadas, já nesse período, pela cultura da moda francesa, percebe-se que os padrões de moda e de hábitos de socialização não estavam em consonância com os da Europa do final do século XVIII e início do século XIX. Assim sendo, as mulheres brasileiras ainda viviam num mundo recluso onde a casa representava seu pequeno espaço de liberdade, pois, o espaço público, revelava-se como espaço de aparência e ostentação.
Com a chegada da corte em 1808, a autora identifica que os espaços de socialização da mulher começam-se ampliar, diante das festas promovidas, principalmente, pela família Real, no Rio de Janeiro. Porém, na Bahia, identifica-se que ainda havia uma sociabilidade limitada, mesmo nos anos do primeiro Reinado.
Durante o Segundo Reinado, os espaços lúdicos em Salvador se tornam mais comum, transformando a cidade em um centro cultural deste período. No entanto, Adriana Reis, deixa claro que mesmo com a ampliação desses espaços, as mulheres eram sempre conduzidas por um “braço masculino” tendo seu comportamento vigiado por todos, pois, qualquer deslize poderia comprometer a reputação da mulher, seja ela, solteira ou casada.
Neste mesmo capítulo, há uma tentativa de reconstrução dos espaços de socialização e dos hábitos cotidianos da mulher da elite do Recôncavo e do sertão baiano. Nessa investigação, em linhas gerais, a autora percebe que as mulheres dessas localidades estavam de uma maneira, ou de outra, sempre em contato com os hábitos e costumes praticados pelas mulheres da elite de Salvador, demonstrando que estavam atentas às mudanças sócio-culturais que aconteciam na capital baiana.
No segundo capítulo, Adriana Reis, de maneira muito lúcida, analisa a forma com que a igreja tentou vincular a imagem da mulher com a da Virgem Maria, e de que maneira a igreja reagiu contra as novas formas de socialização da elite feminina.
A igreja insistia que o cristianismo havia reabilitado a mulher do pecado cometido por Eva, no Jardim do Éden. Acreditando assim, que a mulher ideal era baseada na imagem da Virgem Maria.
 Nesta perspectiva, a mulher deixava de ser escrava, para se tornar companheira do homem. No entanto, essa mulher deveria ser submissa ao pai, ao marido e a Deus. Sendo assim, educada dentro dos princípios cristãos e preocupada  com a caridade aos mais necessitados.
Dentro deste contexto, a autora nos conta que a luta contra a influência europeia na educação da mulher da elite baiana, levou o arcebispo da Bahia, D. Romualdo Seixas, implementar as Irmãs de Caridade na Bahia, com o objetivo de cuidar da educação das mulheres baianas, pois, até a metade do século XIX, os conventos eram praticamente, os únicos espaços educacionais para a mulher, limitando-as dessa maneira, à reclusão.
Paralelo às ideias da igreja, e a partir da fundação da Faculdade Bahiana de Medicina em 1808, os discursos médicos de higienização e de racionalismo iluminista, pautados no  progresso e  na civilização, começam a ter grande influência na sociedade baiana nesse período, tendo como objetivo, tentar padronizar e racionalizar o comportamento feminino. Nesse sentido, o livro deixa claro que apesar do discurso iluminista dos médicos, as suas ideias de moral estavam alinhadas com as da igreja católica.
Enquanto a igreja criticava os novos trajes, os bailes e a vaidade das “moças dos sobrados”, tendo como justificativa, a moral cristã, os médicos os condenavam, a partir de argumentos científicos e higienistas. Porém, ao tratar do celibato, os médicos se colocavam inteiramente contra, argumentando que era uma prática que causava problemas físicos e morais, contrariando assim, os preceitos da igreja e consequentemente, do cristianismo.
No terceiro capítulo do livro, ao analisar o contexto em que as Cartas Sobre a Educação de Cora foram publicadas, Adriana Dantas, reconstrói de forma sucinta, a história do médico, José Lino Coutinho e de Ildefonça Laura Cezar, pais da menina Cora. A partir disso, o livro mostra também, a influência do pensamento iluminista na formação de Lino Coutinho, autor das cartas.
Ao analisar as cartas, a autora percebe que elas foram dividas em quatro fases, e que foram enviadas em cada momento distinto da vida de Cora, para que fosse um manual de  educação da menina. Sendo que a 1ª fase, correspondia do nascimento aos 7 anos de idade, se preocupando assim, com uma educação física e moral, dando pouca atenção para educação religiosa, enquanto que a 2º fase, que correspondia dos 7 ao 14 anos, tinha como objetivo uma educação que possibilitasse a diminuição do “fogo natural da idade”.  Nessa fase, diferentemente dos costumes da época, Lino recomendava o aprendizado das letras: gramática; música; história e francês. A educação religiosa, tinha como princípio, o conhecimento de Deus através da natureza, baseado no pensamento iluminista.
As cartas enviadas para tratar da 3ª fase da educação de Cora, tinha como um dos objetivos principais, dentre outras coisas, cuidar deste “tempo das paixões”, que segundo Lino Coutinho, todo cuidado neste período era pouco. A quarta e última fase, era a fase definida por Lino, como a fase da idade viril.
No último capítulo, o livro se debruça em torno do debate gerado pela publicação das cartas, na sociedade baiana. Analisando os inúmeros periódicos que foram publicados em Salvador neste período, a autora, demonstrando incrível rigor metodológico ao analisar as fontes, nos proporciona um delicioso debate entre os médicos da Faculdade Bahiana de Medicina e os representantes da igreja Católica, sobre a educação feminina.
Nesse cenário, a autora chega a conclusão, de que apesar das propostas inovadoras de José Lino Coutinho e de alguns representantes da classe médica local, os seus objetivos estavam em consonância  com o pensamento da igreja, ao criticar alguns dos novos costumes da elite feminina baiana. Dessa maneira, não havia a intenção de mudar o papel feminino na sociedade baiana, e sim, o de dar novos padrões para regular os seus espaços de socialização. Nesse sentido, a educação da mulher, tanto pelo viés médico, quanto pelo o olhar da igreja, tinha como objetivo principal, formar uma boa mãe, esposa e dona do lar.
A partir de tudo que foi analisado, podemos afirmar, que este livro é obra indispensável para os interessados em pesquisar o comportamento e a educação da mulher baiana no século XIX, fornecendo inúmeras informações necessárias para a discussão de gênero na área de História. Contribuindo assim, para o entendimento das construções históricas referente à natureza feminina.


[1] Wagner Aragão Teles dos Santos é Especialista em História Social e Econômica do Brasil e Pós- graduando do curso de História da Bahia pela Faculdade São Bento da Bahia.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A Importância do Museu para a Construção do Saber na Escola Pública



A importância do museu para a construção do saber na escola pública




Wagner Aragão Teles dos Santos[1]



Resumo: Este presente trabalho visa discutir a importância das visitas aos museus para o processo de aprendizagem na escola pública. Contribuindo assim, para a reflexão sobre as políticas públicas voltadas para a área de educação, que ajude na ampliação da utilização dessa ferramenta histórico-didático-pedagógica.


Palavras-Chave: Educação; Patrimônio Histórico; Museu; Memória.



Não é difícil encontrarmos no Brasil alguém que nunca visitou um museu em toda a sua vida. Na verdade, no nosso país esse é um hábito pouco praticado pela população em geral.
As pessoas geralmente, não enxergam os museus como espaço de construção do saber histórico e social, e sim, como “um lugar onde existem coisas velhas, objetos velhos”.[2]
Os museus históricos, se bem utilizados, são uma fonte quase inesgotável do saber. Espaço de produção e socialização do conhecimento, de identificação do sujeito com a sua história e de conscientização da preservação do patrimônio cultural.
Segundo Ana Ramos Rodrigues, os objetos que se encontram nos museus, “estão carregados de historicidade”.[3] No entanto, para ela, “é preciso exercitar o ato de ler os objetos, de observar a história que há na materialidade das coisas”[4]. Ou seja, é preciso um olhar crítico, que possibilite a leitura do que está subentendido no objeto ao qual está se olhando, em que a criticidade, o questionamento e a obtenção de respostas, sejam elementos fundamentais  na visita ao museu, para que também, a memória elitista preservada nos inúmeros museus deste país, seja questionada pelas classes que se sintam excluídas.
Corroborando com essa linha de pensamento, Caiuá Al-Alam nos diz, que o museu não é apenas um espaço para nos preocuparmos com as coisas que aconteceram no passado, e sim, “porque elas foram como foram”.[5] A partir disso, devemos pensar o museu como espaço de questionamento do passado- não apenas para conhecermos o nosso passado- mas, para questionarmos o passado para sabermos porque as ações humanas aconteceram da maneira que aconteceram, lançando luz às contradições existentes na sociedade contemporânea.
Para que esse olhar crítico diante das peças existentes nos museus seja utilizado pela população em geral, devemos pensar em primeiro lugar, na valorização dos museus como patrimônio cultural. E essa valorização, acreditamos que deva começar na escola, para que o indivíduo desde muito cedo perceba as relações existentes entre o patrimônio cultural e a sua trajetória como sujeito histórico.
“A educação patrimonial é um instrumento de “alfabetização cultural” que possibilita ao indivíduo fazer a leitura do mundo que o rodeia, levando-o à compreensão do universo sóciocultural e da trajetória histórico-temporal em que está inserido. Este processo leva ao reforço da autoestima do indivíduo e comunidades e à valorização de sua cultura, compreendida como múltipla e plural”.[6]

A partir disso, o aluno se identifica com o patrimônio cultural e preserva algo que é comum à toda a comunidade em que está inserido, sendo agente propagador da preservação da memória, do conhecimento adquirido e do olhar crítico aprendido com a observação das peças existentes nos museus.
Dentro desta perspectiva, as visitas aos museus históricos deveria ser algo comum na rede pública de ensino de todo o país, estimulando assim, o interesse posterior do cidadão com seu patrimônio histórico-cultural. Segundo Ana Ramos Rodrigues, “uma visita pode representar pouco, mas este pouco poderá ser o estímulo para que ocorram outras visitas posteriores e estimulem a construção de novos conceitos”. No entanto, ainda percebemos resistência dos professores e da direção escolar ao se tratar de visitas à museus, assim como, observamos a falta de políticas educacionais voltadas para aproximar o museu da escola.
Há uma necessidade de se implementar no país, uma política educacional em que a visita ao nosso patrimônio histórico se torne mais uma, das inúmeras ferramentas importantes na prática docente. É necessária uma mudança da comunidade escolar ao se tratar desse assunto. Ana Ramos Rodrigues nos conta que:

“Desenvolvendo uma maior conscientização cultural para professores, alunos e todos os envolvidos, não ficando apenas o museu desenvolvendo seu trabalho e a escola agindo de forma passiva. É necessário incentivar um maior desenvolvimento das partes, para proporcionar aos alunos, um acesso maior a esse tipo de cultura”.[7]


A necessidade à cultura por parte dos alunos da escola pública é uma questão extremamente delicada, pois, apenas depois de entendermos os aspectos sócio-econômicos do nosso país, poderemos entender o porquê da indiferença da grande maioria da sociedade brasileira em relação ao patrimônio histórico e cultural.
Os alunos que estudam nas escolas públicas do nosso país, em sua grande maioria, fazem parte da classe menos favorecida economicamente da nossa sociedade, que dentre outras necessidade, carecem por acesso à cultura, informação e lazer.
Segundo Ana Ramos Rodrigues, “no Brasil, pesquisas mostram que, na maioria das vezes, é somente por meio da escola que crianças e jovens das classes em desvantagens econômicas visitam as instituições culturais”.[8]
Assim sendo, podemos perceber o quanto a escola é importante para a mudança de pensamento da nossa sociedade em relação à valorização e preservação do patrimônio histórico-cultural, assim como, a identificação do indivíduo e da comunidade com a memória que está preservada nestas instituições.
Dentre os inúmeros problemas existentes na escola pública brasileira, o distanciamento entre escolas e museus é mais um obstáculo que nossa sociedade deve ultrapassar para transformá-la num verdadeiro espaço de socialização e construção do conhecimento.        





Referências:


Al-ALAM, Caiuá Cardoso; ARAÚJO, Edson Souza de; PEREIRA, Kaiene de Carvalho.  Museus e educadores: uma reflexão sobre o uso de museus como ferramenta pedagógica. Revista Latino-Americana de História. V. 2, n. 6, p. 553-168, ago. 2013.

PACHECO, Ricardo de Aguiar. Educação, Memória e Patrimônio: ações educativas em museus e o ensino de História. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 30, nº 60, p. 143-154, 2010.

RODRIGUES, Ana Ramos. O Museu Histórico como Agente de Ação Educativa. Revista Brasileira de História e Ciências Sociais. v. 2, n. 4, p.215-222.

RODRIGUES, Ana Ramos.  O museu e o ensino de história. Disponível em: http://www.revistamuseu.com.br. Acesso em: 22 out 2013.


[1] Wagner Aragão Teles dos Santos é graduado em Licenciatura em História pelo Centro Universitário Jorge Amado e especialista em História Social e Econômica do Brasil pela Faculdade São Bento da Bahia.
[2] RODRIGUES, Ana Ramos. O Museu Histórico como Agente de Ação Educativa. Revista Brasileira de História e Ciências Sociais. v. 2, n. 4, p.217.
[3] RODRIGUES, Ana Ramos. O Museu Histórico como Agente de Ação Educativa. Revista Brasileira de História e Ciências Sociais. v. 2, n. 4, p. 217, dez. 2010.
[4] idem.
[5]Al-ALAM, Caiuá Cardoso; ARAÚJO, Edson Souza de; PEREIRA, Kaiene de Carvalho.  Museus e educadores: uma reflexão sobre o uso de museus como ferramenta pedagógica. Revista Latino-Americana de História. V. 2, n. 6, p. 556, ago. 2013.
[6]PACHECO, Ricardo de Aguiar. Educação, Memória e Patrimônio: ações educativas em museus e o ensino de História. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 30, nº 60, p. 149, 2010.
[7]RODRIGUES, Ana Ramos.  O museu e o ensino de história. Disponível em: http://www.revistamuseu.com.br. Acesso em: 22 out 2013.
[8] idem.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O Grande Ditador - LEGENDADO

O Grande Ditador é um dos grandes clássicos do gênio, Charles Chaplin. Uma grande sátira sobre a Alemanha nazista, que tem no final uma passagem inesquecível do cinema mundial.


sábado, 29 de setembro de 2012

Encruzilhadas da Liberdade


                                  
FRAGA FILHO, Walter.

Encruzilhadas da Liberdade: histórias de escravos e libertos na Bahia (1870-1910). Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2006, p.245-282.                           
                            

                                                        
                                                           Wagner Aragão Teles dos Santos


No capítulo 7 do livro Encruzilhadas da Liberdade, Walter Fraga descreve a trajetória de ex-escravos nos engenhos do Recôncavo baiano após a abolição da escravidão em 1888, analisando os motivos que os levaram a permanecer na região onde foram submetidos aos terríveis intempéries do período da escravidão.
Observando os nomes de moradores de engenhos internados no Hospital da Santa Casa de Santo Amaro, entre os anos de 1906 e 1913, o autor chegou a conclusão que 80,6% dos negros e mestiços internados no hospital residam nos engenhos em que nasceram, indicando baixo número de emigração de ex-escravos para outras regiões.
Segundo Fraga Filho, inúmeros motivos fizeram com que os libertos recorressem a alternativa de permanecer na região ou mesmo, na propriedade do seu antigo senhor. Dentre elas estavam as condições climáticas adversas na Bahia entre os anos de 1888 e 1890, responsáveis pelo desemprego, a carestia e a fome. O medo da repressão policial aumentada com o fim da escravidão, que poderia facilmente prender um simples forasteiro como “suspeito” ou vagabundo.
No entanto, o autor salienta “que nem sempre o desejo de quebrar os laços de dependência com os antigos senhores estava associado à migração para outras localidades”. Muitos viam na permanência na propriedade do antigo senhor, alternativas concretas da ampliação dos seus espaços de sobrevivências e possibilidade de continuar a ter acesso à terra. A mudança, por esse ponto de vista significava um novo e penoso recomeço.
O autor explica que a questão religiosa não pode ser negligenciada ao analisar os motivos responsáveis pela permanência dos libertos nas propriedades de seu antigo senhor. O engenho guardava, além da memória da vida sofrida como escravo, a memória da luta por espaços e do culto aos seus deuses.
Durante esse período, os ex- senhores de escravo se empenharam para manter o controle da força de trabalho em sua região. Como não eram mais proprietários de escravos, redefiniu-se as estratégias de manutenção dessa força de trabalho. Faziam-se da imagem de “protetores” dos antigos escravos para prolongar alguns elementos da simbologia do poder e da autoridade senhorial nesse mundo pós- abolição, perpetuando-se assim, o domínio dos seus poderes por mais algum tempo sobre os moradores do engenho.
Porém, para Fraga Filho, a população liberta aprendeu ao longo de três séculos a lidar com a autoridade do poder paternalista do senhor de engenho. Aceitava-se a “proteção” do senhor, em troca de respeito à condição de homem livre, não sendo mais tolerado castigo, trabalho excessivo ou sem remuneração. Para o autor, essa estratégia de se deixar ser um protegido do seu ex-senhor, era de fundamental importância para movimentar-se no mundo dos brancos, se protegendo de abusos de outros poderosos.
No entanto, ao analisar processos-crimes de cidades do recôncavo baiano, o autor percebe que, para se afastar da interferência, e mesmo, do racismo e da submissão, muitos libertos resolveram se afastar dos engenhos, pois, apesar da abolição da escravidão, no imaginário senhorial as práticas escravistas tendiam a se perpetuar.
                   
Sujeição e liberdade em um engenho do Recôncavo     

         Ao fazer um estudo de caso, investigando e analisando o inventário dos bens de Inácio Rodrigues Pereira Dutra, senhor do Engenho da Cruz, na freguesia do Iguape, Walter Fraga Filho, percebeu que o engenho, em sua primeira safra após a abolição produziu menos do que anteriormente, além de não ter conseguido cumprir com obrigações contratuais no fornecimento de cana para a Bahia Central Factories Limited. Atribuindo-se à perda da mão-de-obra escrava o declínio da produção e impedimento do cumprimento das obrigações contratuais.
           Através do cruzamento do inventário com os registros de batismo da freguesia do Iguape, o autor constatou que boa parte dos trabalhadores nascidos na freguesia, era de propriedade do barão de Iguape, e estes, permaneceram na propriedade para dar continuidade aos serviços, após a abolição da escravidão. No entanto, segundo o autor “Rodrigues Dutra teve que remunerá-los por toda atividade realizada no engenho”.
           Ao analisar as relações de trabalho no contexto pós-abolicionismo, percebe-se a luta dos libertos por autonomia nas horas trabalhadas no engenho. Verifica-se que houve uma diminuição das horas de trabalho empregadas no engenho em troca de atividades autônomas nas roças ou em outras propriedades.
           Ao investigar os registros de nascimento, casamento e óbitos da freguesia do Iguape, Fraga Filho descobre que a maioria dos ex-escravos, além de terem nascidos no Engenho da Cruz, eram também, “filhos de ex-escravos que estavam sob domínio da família Dutra desde a metade do século XIX”.
            Descobriu-se que muitos dos ex-escravos do Engenho da Cruz, utilizavam o sobrenome do antigo senhor. O autor nos explica que utilizar o nome Dutra era provavelmente, uma estratégia utilizada pelos libertos, para transitar num mundo onde as relações sociais eram fundamentais para sobrevivência do individuo.
          Através da análise dos livros de registros de nascimento e óbito guardados no Cartório Civil do Iguape, o autor identifica o quanto foi difícil esse período para os libertos. Tempos em que muitos viram os últimos africanos, crianças e jovens serem enterrados.
            Os documentos revelaram ao autor e pesquisador Walter Fraga Filho, vários incidentes envolvendo os libertos durantes esses primeiros anos após o fim da escravidão. Dentre eles, estavam incidentes relacionados aos limites de dependência impostos pelos ex-escravos, como no caso de desavença entre Luís Rodrigues Dutra e Firmino Bulcão.
 Luís Rodrigues Dutra, sabendo da origem escrava de Firmino Bulcão; ex- escravo do Engenho Acutinga, acreditava que Firmino lhe devia obediência ao ser advertido por estar armado na propriedade de sua família. Algo inadmissível para Firmino em sua nova condição de liberto.
Outra forma de conflito encontrada nos documentos foi a relacionada às transformações sociais que estavam na última década do século XIX e no início do século XX.
Analisando os processos-crimes entre os anos de 1889 e 1894, Walter Fraga chegou à conclusão de que a composição da população de trabalhadores do Engenho da Cruz estava sofrendo algumas modificações importantes. Num levantamento feito com 17 trabalhadores do engenho citados em processos-crimes, apenas cinco pertenciam à lista de pagamentos de trabalhadores do engenho, investigados pelo autor no inventário de Inácio Rodrigues Pereira Dutra de 1888.
 Essa movimentação de indivíduos na região intensificou as tensões e os conflitos, como no caso do assassinato de Isabel Bulcão, morta às margens do rio Açu, em terras do Engenho da Cruz, pelo amássio Possidônio Bulcão, ao lavar roupa com outras mulheres. Possidônio teria matado por ter sido trocado por uma tal Fortunato, que segundo o autor não consta na lista dos trabalhadores de 1888.

Memórias do pós-abolição
                    
            No fim deste capitulo do livro, Walter Fraga Filho expõe o emocionante depoimento de Manoel Araújo Ferreira, imigrante natural de Tanquinho de Feira, que chegou no Engenho da Cruz com a família em 1907 em busca de estadia provisória, mas, que se tornou moradia permanente para sua família.
            Walter se demonstra emocionado ao ver “Manoelzinho” falar sobre pessoas que ele apenas conhecia por documentos. Seu depoimento revelou a frustração do casal Luís Rodrigues Dutra e “dona Amélia, com o fim da escravidão. Demonstrando o quanto foi traumático para os senhores de escravo o 13 de maio de 1888.
            O depoimento de Manoelzinho deixou mais claro para o autor como as relações de trabalho ficaram ajustadas a partir do fim da escravidão. Habitando em casas simples, ainda chamadas de senzalas muitos libertos plantavam suas roças. Pagavam-se aos Dutra para beneficiar a mandioca nas casas de farinha. Segundo Manoelzinho, plantavam-se também roças nas terras dos seus antigos senhores em troca de prestação de serviços em dias pré-determinados.
            Concluindo, o autor deixa claro que a permanência de alguns libertos no Engenho da Cruz, significou a possibilidade de terem acesso à terra, garantindo a sobrevivência da família e preservação de valores culturais próprios. Outros porém, possivelmente migraram para outras localidades, estabelecendo-se em outras regiões do Recôncavo baiano em busca de novas perspectivas.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A política de valorização do café nos tempos da República velha


A política de valorização do café nos tempos da República Velha





Wagner Aragão Teles dos Santos[1]



Resumo: Este presente trabalho visa analisar os mecanismos de proteção criados pelo estado brasileiro e o setor financeiro internacional, objetivando regular o preço do café no mercado mundial. Investigando assim, as causas e efeitos dessa política protecionista.


Palavras-Chave: Economia cafeeira, Superprodução, política de valorização, compra de excedentes.





Ao longo de toda sua história, o Brasil se constituiu num país fornecedor de produtos agrícolas para o resto do mundo, tornando assim, o agro negócio sua atividade econômica mais importante.
Durante o período de colonização, o açúcar foi principal produto dessa economia agrícola, tendo papel fundamental durante toda a história do país, até os dias atuais.
 No entanto, a partir da segunda metade do século XIX, o café, desponta como um produto de alto valor comercial para o mercado brasileiro, tornando-se mais tarde, o produto de exportação mais importante da economia do país.  
O mercado mundial do café no final do século XIX era tão favorável aos empresários brasileiros, que segundo Celso Furtado, o Brasil controlava ¾ da oferta mundial do produto.[2]    
Porém, com a crise norte-americana de 1893 e a depressão ocorrida no mercado mundial em 1897, o preço do café, que até então estava elevado por conta da procura do produto, despenca consideravelmente. Enquanto a saca do café em 1893 era vendida por 4,09 libras, em 1899 já havia caído para 1,48 libra.[3]
A partir dessa perspectiva, começa-se a elaborar no Brasil políticas protecionistas para a cultura do café, visando a valorização do preço do produto no mercado mundial.
Em 1906, num convênio celebrado em Taubaté, a solução encontrada pelas autoridades das regiões produtoras de café e seus empresários, para a proteção dos preços do café foi, a retirada de milhões de sacas do produto, com o auxílio de grupos de investimentos internacionais, objetivando o aumento do preço do café através da especulação financeira.
Essa política de valorização negociada em Taubaté, segundo Celso Furtado, consistia basicamente, na intervenção do governo comprando excedentes, visando equilibrar o preço do produto. Estabeleceu-se também que essas compras se fariam com empréstimos estrangeiros, além da criação de um novo imposto sobre o café, seguido de uma política de desencorajamento da expansão das lavouras cafeeiras.[4]
Caio Prado Jr. nos relata em seu livro, História econômica do Brasil, que: “no período de 1906 e 1910 tinham sido retirados do mercado livre cerca de 8.500.000 de sacas”.[5] Demonstrando assim, o quanto foi intensiva a tentativa dos empresários brasileiros de controlar os preços do café no cenário mundial.
No entanto, para Celso Furtado, o alto nível dos preços do café no mercado mundial, possibilitada pela política de valorização, atraía cada vez mais inversões de capitais para o setor cafeeiro, criando assim, um novo problema:


Mantendo-se firmes os preços, era evidente que os lucros se mantinham elevados. E também era óbvio que os negócios do café continuariam atrativos para os capitais que neles se formavam. Em outras palavras, as inversões nesse setor se manteriam em nível elevado, pressionando cada vez mais sobre a oferta.
Dessa forma, a redução artificial da oferta engendrava a expansão dessa mesma oferta e criava um problema maior para o futuro.[6]


Também para Caio Prado Jr. essa política de valorização do café estimulava cada vez mais a produção cafeeira, pois, “entre 1918 e 1924 o número de cafeeiros paulistas passará de 828 milhões para 949. Repete-se novamente a velha história da superprodução”.[7]
A alta dos preços, manipulada artificialmente através da retenção de estoques tornava o setor cafeeiro muito atrativo, impedindo  inversões de capital para outras áreas da economia brasileira, fazendo com que o capital adquirido com os lucros do negócio cafeeiro seja novamente investido nessa cultura agrícola.[8]
No entanto, a partir da segunda metade da década de 20 e principalmente depois de 1929, os estoques de café aumentam cada vez mais, prejudicando a economia cafeeira por não ter aonde escoar a produção, cada vez mais, retida pela política de valorização. Para Caio Prado Jr:


Aparentemente a situação da lavoura era próspera: os altos preços do café prometiam larga margem de lucros. Prometiam apenas, porque efetivamente não se vendia e exportava sendo uma parte da produção. O reto permanecia retido à espera de oportunidade que nunca chegará. O pior é que depois de alguns anos de funcionamento do plano, não havia mais como sair da situação artificial e precária que se criara.[9]


Entre os anos de 1924 e 1929, “só em São Paulo, o número de cafeeiros subirá dos 949 milhões que o vimos em 1924, para 1.155.000.000 em 1930”.
Enquanto os estoques e a produção do café aumentam consideravelmente, a capacidade de absorção desse produto no mercado mundial diminui vertiginosamente por conta da crise financeira de 1929, complicando a situação do setor cafeeiro no Brasil.
Para Celso Furtado, a solução mais adequada para resolver o problema do setor do café, seria pôr em prática uma das medidas negociadas em Taubaté em 1906. Deveria desestimular o aumento do cultivo do café no país.

A solução, aparentemente, estaria em evitar que a capacidade produtiva continuasse crescendo, ou que crescesse mais intensamente como efeito da estabilidade dos preços num nível elevado. As medidas tomadas nesse sentido foram porém, infrutíferas.[10]


Segundo Celso Furtado, outras áreas da economia brasileira deveriam ser atrativas para o capital gerado na indústria cafeeira.:

Teria sido necessário que se oferecessem ao empresário outras oportunidades, igualmente lucrativas, de aplicação dos recursos que estavam afluindo continuamente a suas mãos sob forma de lucros.[11]         


            Ou seja, deveria ter sido estimulada por parte do estado, outros setores da economia brasileira, para que se tornassem mais atrativos para os capitais gerados no setor cafeeiro, para que assim, houvesse inversões de capitais gerados na indústria cafeeira, para outros setores da economia brasileira, possibilitando a diminuição da expansão do cultivo do café no país. Assim sendo, facilitaria o controle dos preços do café no mercado internacional e diminuiria os estoques invendáveis, retidos ao longo de toda essa política de valorização.
          Portanto, o estimulo à diminuição da produção cafeeira nunca aconteceu efetivamente, criou-se na verdade uma “bolha” produtiva, na qual a produção era cada vez mais estimulada pelos altos lucros gerados pelo preço do produto no mercado mundial, possibilitado pela retenção deste, em estoques cada vez maiores, fazendo com que o governo brasileiro a partir da década de 30 tomasse decisões mais drásticas para evitar uma crise maior no setor cafeeiro.
          Na verdade, Caio Prado Jr. nos explica que, durante essa política de valorização do café, o setor que realmente ganhou com isso foi o financeiro:


Enquanto os agentes financeiros da valorização usufruíram assim largamente a operação, os produtores, embora obtivessem durante alguns anos melhores e mais estáveis preços, arcarão depois com todo o ônus dela. São eles que assumem a responsabilidade das grandes dívidas contraídas para executá-la.[12]
                                         


            Diferentemente do que poderíamos supor, os produtores de café não foram os maiores beneficiados pela política de valorização do produto, e sim, o setor financeiro.
            Para Prado Jr. “os momentâneos proveitos da valorização custaram muito caro para os produtores e à economia brasileira em geral.”[13] Demonstrando assim, o quanto foi prejudicial à nossa economia ao longo da primeira metade do século XX.







[1] Wagner Aragão Teles dos Santos é graduado em Licenciatura em História pelo Centro Universitário Jorge Amado.
[2] FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. 34. ed. São Paulo: Companhia das letras, 2007. p. 252.
[3] Ibid. p.253.
[4] Ibid. p.254.
[5] JÚNIOR, Caio Prado. História Econômica do Brasil. 26. ed. São Paulo: Ed. Brasiliense.
[6] FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. 34. ed. São Paulo: Companhia das letras, 2007. p.255.
[7]JÚNIOR, Caio Prado. História Econômica do Brasil. 26. ed. São Paulo: Ed. Brasiliense.
[8] FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. 34. ed. São Paulo: Companhia das letras, 2007. p.256.
[9] JÚNIOR, Caio Prado. História Econômica do Brasil. 26. ed. São Paulo: Ed. Brasiliense.

[10] FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. 34. ed. São Paulo: Companhia das letras, 2007. p.255.
[11] Ibid. 256.
[12] JÚNIOR, Caio Prado. História Econômica do Brasil. 26. ed. São Paulo: Ed. Brasiliense.
[13] Ibid.