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sexta-feira, 24 de abril de 2015

Índios Aldeados


ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. Os Índios Aldeados: história e identidade em construção. Tempo, Rio de Janeiro, nº 12, p. 51-71.







Wagner Aragão Teles dos Santos1





Resumo: Neste trabalho, Maria Regina Celestino Almeida, analisa a assimilação das populações indígenas aldeadas no Brasil, diante da colonização portuguesa a partir do século XVI, observando assim, os diferentes papeis dos índios aldeados, os quais lutavam para afirmação de sua própria identidade.





No início do artigo, a autora salienta que apesar de os índios que fizeram parte do processo de colonização portuguesa no Brasil terem passado por um processo de “perdas culturais contínuas, que os conduziam à descaracterização étnica e cultural”, é possível encontrar seus descendentes no XIX, afirmando a identidade de índio aldeado, com o intuito de manter seus direitos jurídicos diante das terras concedidas no passado.

Pensando a partir de estudos referentes ao índios aldeados no Rio de janeiro, Maria Almeida explica que deve-se quebrar essa visão dualística entre brancos e índios ao se pensar a cultura. Para ela, devemos pensar a partir de um processo de ressignificação e apropriação cultural. Para analisar esse processo, é preciso pensar “algo mais do que prejuízos, perdas e extinção”, deve-se pensar como, “um processo de resistência adaptativa”. p. 52.

Nesse sentido, os índios aldeados, se adaptaram ao mundo colonial em formação, se assumindo com tal, e lançando mão de seus direitos de aldeados quando necessário, sendo de certa forma, identificado o seu lugar na sociedade, dentro da estrutura da colonização portuguesa, na qual tinham várias obrigações a cumprir, porém, haviam também, direitos dos quais podiam usufruir.

A autora utiliza a história dos índios Termiminó para confirmar a sua tese de ressignificação e apropriação cultural das populações indígenas no Brasil colonial. 
 
Os Termiminó estavam em conflitos com os índios Tamoios durante o período de colonização portuguesa. Ao perceberem o seu enfraquecimento diante dos seus rivais, pediram ajuda ao portugueses, e se tornaram, por iniciativa própria, índios aldeados no Espírito Santo em 1555. A partir deste momento, se tornou mais comum observar relatos dos Termiminó em documentos contemporâneos.

Ao tentar desvendar a origem étnica desse grupo indígena, a autora encontra algumas dificuldades, por falta de documentação confiável. No entanto, a autora supõe que esses índios era na verdade, um grupo Tamoios, que, em conflitos com seus vizinhos, resolveram pedir ajuda aos portugueses.

A autora explica que, para os Termiminó, assumir a “posição de inimigos ancestrais dos Tamoios e de amigos dos brancos devia ser, naquele momento, bastante vantajoso, dadas as difíceis condições que atravessavam”. p. 54. Nesse sentido, a autora identifica uma imensa flexibilidade destes índios em relação às suas identificações, pois passaram de Tamoio para Termiminó, e depois para índios de São Lourenço com aparente facilidade.

A autora salienta que estudos recentes têm demonstrado “a prática de os índios assumirem mais de uma identidade, conforme o agente social com o qual interagem”. No caso dos Termiminó, havia uma interação com os portugueses, que nesse momento eram seus aliados e com os Tamoios, atuais inimigos. Nessa relação, havia um claro interesse Termiminó ao procurarem proteção diante dos portugueses, inimigos dos Tamoios. No entanto, a autora ressalta que, “os índios de São Lourenço não necessariamente abriam mão de seus próprios critérios de identificação entre si e em relação aos outros, embora tais critérios, com certeza se alterasse na colônia”. p . 56.

Nesse processo de afirmação de uma identidade de índio aldeado, o texto ressalta de que maneira as lideranças indígenas utilizavam o prestígio de seus antecessores para reivindicar direitos diante da coroa portuguesa. Segundo a autora, os argumentos dessas lideranças indígenas, para a obtenção das mercês, “demonstravam consciência da sua posição de índios aldeados”. p. 57. Nesse sentido, fica claro, que as lideranças indígenas sabiam que o benefício das mercês estava disponível para os que haviam prestado serviços à coroa, em socorro às necessidades de seus súditos. Para tanto, se utilizavam desse direito, exaltando os serviços prestados por seus antepassados.

Vale ressaltar que, “os índios eram súditos do Rei, com reconhecimento jurídico sobre sua condição específica de aldeado”. p. 58. Segundo a autora, a identidade de aldeado com o nome de batismo português se sobrepunha a sua identidade étnica, demonstrando que houve uma apropriação de novos valores nesse novo mundo em que eles estavam vivendo. Ser súdito do Rei poderia significar a possibilidade de conseguir benefícios diante da coroa.

Ao analisar sobre construção étnica dos índios aldeados e suas ações políticas no processo histórico de colonização, a historiadora expõe as dificuldades para identificar as características culturais e relações consanguíneas vivenciadas no interior das aldeias. No entanto, ela ressalta que “tal limitação já não constitui obstáculo para se pensar a possibilidade de considerá-los como grupos étnicos”. p. 59. Para a autora, “estudos recentes sobre etnicidade e cultura, tendem a priorizar cada vez mais as dimensões políticas e históricas, vividas pelos grupos indígenas, em situações de contato, deixando de considerar a cultura e muito menos as relações consanguíneas como elementos definidores de etnicidade”. p.59.

Segundo Maria Almeida, a ação política em comum e o sentimento subjetivo de comunidade, são elementos essenciais para a formação de comunhão étnica. De acordo com Cohen, os grupos étnicos, inseridos em sistemas sociais mais amplos, mantêm-se e fortificam-se, enquanto as diferenças políticas e econômicas que os distinguem continuarem existindo”. p.61.

Ao analisar sobre elementos culturais constituídos pelos povos indígenas aldeados, a autora discorre sobre as dificuldades de considerar a cultura como elemento-chave para definir grupos étnicos. Para a autora, as misturas e transformações ocorridas durante a colonização, tornou difícil identificar, entre os índio aldeados, sinais de manutenção de traços culturais. Ela explica, que essa dificuldade se deve em grande medida à limitação das fontes. Assim sendo, não indícios suficientes para “se afirmar que as populações das aldeias se distinguissem de seus vizinhos, moradores e foreiros em suas terras, por quaisquer sinais culturalmente visíveis”. p. 64.
 
Vale ressaltar, que a convivência nas aldeias, fazia desenvolver novos hábitos e costumes, e que em grande medida, dentro desse processo, os jesuítas desenvolveram papel fundamental, ao incentivar novos hábitos culturais. Nesse sentido, a língua geral, teve uma grande importância, pois, “introduzida e estimulada pelos jesuítas no interior das aldeias, desempenhou papel fundamental, no sentido de facilitar a comunicação entre os diferentes grupos étnicos e sociais na colônia, tendo contribuído para facilitar a coesão entre eles (…) no interior das aldeias, construiu-se uma nova cultura, que não era nem europeia nem indígena e seu idioma era a língua geral”. p. 64

Nesse estudo, a autora salienta também, a capacidade dos povos indígenas de reformularem seus mitos e compreensões do mundo. Mesmo reduzidos à condições de extrema dificuldade, esses grupos sociais foram capazes de reconstruir significados, fortalecendo assim, identidades culturais. A autora utiliza o caso da Santidade de Jaguaripe como exemplo de mito capaz de reconstruir e reelaborar seus significados, constituindo-se assim, como modo de consciência social.
 
Dentro desse processo de reconstrução dos significados, os índios aldeados misturaram sua história com a dos portugueses, se inserindo no contexto histórico, não como derrotados, e sim, como herois vitoriosos. 
 
Para a autora, a história desses povos estavam intimamente ligada com a dos portugueses, num mundo “que não era português, nem indígena, mas um mundo no qual diferentes grupos étnicos e sociais interagiam em sua construção e, neste processo, construíam suas identidades”. p. 68. A partir disso, construíam uma memória social condizente com o novo contexto em que estavam inseridos.

A autora salienta que ao assumirem uma identidade de subordinados, que foi concedida pelos colonizadores, os índios aldeados “reelaboraram-na para transformá-la em identidade gloriosa. Transformaram a derrota em vitória, trocando a condição de perdedores submissos, na qual a dominação os colocara, pela de vencedores da ordem colonial, fiéis servidores não só dos missionários e das autoridade locais, mas também, e principalmente, do Rei distante”. p.71.



1Wagner Aragão Teles é especialista em História Social e Econômica do Brasil e Pós- graduando do curso de História da Bahia pela Faculdade São Bento da Bahia.

História, Cultura e Poder


COUTO, Edilece Souza. Considerações Sobre a Produção Historiográfica das Religiões e Religiosidades na Bahia. In: DIAS, Luis Mattedi et al (Org.). História, Cultura e Poder. Salvador: EDUFBA, 2010. p. 141-146.






Wagner Aragão Teles dos Santos1






Resumo: Neste trabalho, a autora visa analisar algumas obras de historiografia das religiões e religiosidades na Bahia, que foram produzidas e publicadas a partir da década de 1970. Observando assim, o aumento do número de pesquisas sobre religiões na Bahia neste período, em que o referencial historiográfico é a francesa Escola dos Annales.







Ao analisar os primórdios da História das Religiões, a autora explica que no início os historiadores tinham como preocupação, “a busca da origem das religiões, da essência da vida do homem religioso e da precisão dos textos e livros sagrados”, utilizando assim, o método comparativo para analisar os mitos, ritos, símbolos e instituições de diversos contextos religiosos. p.142. 
 
A autora explica que a História Religiosa, onde aborda apenas uma religião ou alguns dos seus aspectos teve seu desenvolvimento no século XX e que durante muito tempo, ela foi confundida com a história eclesiástica. Apenas na segunda metade do século XX ela se estabelece no meio acadêmico e científico.
Nesse período, há uma renovação na historiografia religiosa com a influência das novas abordagens trazidas pela historiografia francesa da Escola dos Annales, no qual, reconhece o homem como participante do processo histórico. “Nesse sentido, passaram a valorizar os modos de sentir e pensar das classes subalternas e a relação existente entre suas crenças e os aspectos sociopolítico e econômico” p.143.

Para a autora, a partir da década de 1970, a historiografia brasileira foi influenciada pela História das Mentalidades, herdeira dos Annales, abrindo-se para novos temas e novas perspectivas teóricas, ao valorizar temas ligados ao cotidiano e as representações. No entanto, com as críticas internas e externas desse campo historiográfico, considerado vago por muitos, a história das crenças migrou para a História Cultural, tendo como um dos seus principais expoentes, Carlo Ginzburg, defensor da teoria da “circularidade cultural”, o qual acredita na “existência de uma influência recíproca entre as culturas das classes subalternas e dominantes”.

Ao analisar a historiografia Baiana a partir da década de 1970, a autora identifica a importância do livro A heresia dos índios, de Ronaldo Vainfas para a historiografia sobre religiosidade no período colonial, por utilizar “reflexões e métodos da Antropologia na descrição minuciosa dos rituais: pregação dos pajés caraíbas, missa, batismo, etc”. p. 145.

Vainfas explorou justamente a junção dos elementos de raças e credos diversos, portanto a circularidade cultural, presente nesse catolicismo tupinambá. p.145.

A autora também ressalta a importância de Vainfas e de Luiz Mott nas pesquisas sobre sexualidade na Bahia colonial, em que evidenciam a existência de leis e regras de comportamento impostas pela igreja, para que os fiéis se afastassem das tentações sexuais, ao mesmo tempo que demonstra as inúmeras práticas sexuais condenadas pela igreja, praticada inclusive, por padres e freiras.

Sobre o período a Inquisição na Bahia colonial, a autora destaca o trabalho Lígia Belinni, que trata das práticas de sodomia entre as mulheres, e a dissertação e tese de Suzana Severs que trata sobbre os cristãos novos na Bahia setecentista.

Ao tratar das pesquisas sobre as Ordens Terceiras, Edilece Couto destaca o trabalho de Maria Vital Camargo, que analisou “a organização interna da Ordem: Compromisso, administração, e composição da mesa, além da posição socioeconômica e religiosa dos irmãos”. p. 146. Outro trabalho destacado é o de Maria Socorro Martinez, que estudou as ordens terceiras em Salvador, tecendo comparações entre hierarquias e ideologias políticas entre as cinco instituições.

Dois trabalhos de João José Reis são lembrados pela autora. O livro A morte é uma festa e o artigo O cotidiano da morte no Brasil oitocentista. Nos dois trabalhos, o autor analisa a morte, em que “procurou compreender as concepções dos brasileiros. Sobretudo dos baianos, sobre o mundo dos mortos e dos espíritos”. p. 147

Dentre outros trabalhos observados, a autora analisa os estudos realizados sobre as festas, ressaltando que os estudos sobre este tema, a partir 1970, visou-se “compreender as festividades não apenas como momentos de diversão, mas ocasiões nas quais podem ser observados e analisados os comportamentos, atitudes, tensões, representações culturais e visões de mundo de uma coletividade.” p. 148. Dentre estes estudos estão o de Wlamyra Albuquerque, sobre a festa do Dois de Julho, e o de Eduardo Guimarães, sobre a festa do Bonfim.

Edilece Couto, observa também, que as religiões protestantes têm atraído a atenção dos pesquisadores baianos nos últimos anos. A dissertação e tese de Marli Geralda sobre a Primeira Igreja Batista é um dos exemplos que ela utiliza. Trabalho pioneiro, suas pesquisas são referência para o estudo sobre a expansão das igrejas protestantes em território baiano.

Por fim, a autora, explica que, “nessas quatro décadas de estudo sobre o campo religioso na Bahia, grande parte das obras aqui comentadas foram escritas por alunos que eram ou se tornaram professores do Programa de Pós-graduação em História da UFBA”. p. 152. Segundo ela, a partir de 1989, várias dissertações foram orientadas por esses professores.

A autora chega a conclusão que, entre os anos de 1989 e 2008 foram defendidas no Programa de Pós-graduação da UFBA, 23 dissertações e uma tese sobre religião. Sendo 8 sobre a Igreja Católica e as práticas leigas, 7 sobre Religião e Política, 4 sobre Ordens religiosas, 2 sobre Protestantismo e 2 sobre Messianismo.

A partir desses dados, a autora observa que há um vasto campo a ser pesquisado no que se refere às religiões Protestantes e Pentecostais na Bahia, pois, “a única dissertação defendida em História sobre a expansão do neopentecostalismo trata da Igreja Universal do Reino de Deus em Moçambique”. p. 154.

A autora revela que apesar dos avanços nesse campo de investigação, há ainda muito o que se investigar, pois, pesquisas sobre religiões afro-brasileiros, por exemplo, ainda é escassa.


1Wagner Aragão Teles é especialista em História Social e Econômica do Brasil e Pós- graduando do curso de História da Bahia pela Faculdade São Bento da Bahia.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Cafundó



CAFUNDÓ. Direção: Paulo Betti; Clóvis Bueno. Produção: Prole de Adão; Laz audiovisual Ltda. 102 min. 2005. Son, Color, Formato: 35mm.




Wagner Aragão Teles dos Santos1


O filme se passa no final do século XIX, logo após a abolição da escravidão no Brasil. Apesar do fim da escravidão, a vida do liberto, em quase nada mudara se comparado aos anos anteriores. Estava agora inserido numa sociedade, a qual oferecia condições de subsistência extremamente limitadas. Sujeitando-se a trabalhos, geralmente degradantes, em troca do mínimo para sobreviver. Muitos ainda, ligados aos seus antigos senhores, como forma de garantir proteção e condições de subsistência.

Segundo Walter Fraga, em seu livro Encruzilhadas da Liberdade, muitos libertos viam na permanência na propriedade do antigo senhor, uma alternativa concreta de ampliação dos seus espaços de sobrevivências e possibilidade de continuar a ter acesso à terra.2

É nesse contexto histórico que o filme aborda a vida de João de Camargo, ao lado de seu amigo Cirino. Ambos são enviados no início do filme para combater na Revolução Federalista em 1893, no Rio Grande do Sul, alistando-se no Exército a mando de seu ex-senhor, para servir a recém criada República Federativa do Brasil.

Ao voltar da guerra, João de Camargo têm dificuldades de se inserir socialmente na cidade de Sorocaba, pois, o Brasil Republicano passava agora por uma tímida industrialização nas cidades, dificultando assim, o cotidiano daqueles que passaram a vida toda trabalhando no campo. 

Com o fim da escravidão, houve no Brasil uma grande entrada de imigrantes europeus. A vinda desse imigrantes, certamente, tiraram a oportunidade de emprego de muitos libertos, pois, aumentara-se a oferta de mão de obra, principalmente, na região cafeeira do Brasil. Havia a preferência dos senhores do café pela força de trabalho vinda da Europa, impulsionando, em grande medida, parte dos libertos para áreas urbanas. Segundo Boris Fausto, “cerca de 3,8 milhões de estrangeiros entraram no Brasil entre 1887 e 1930. […] Essa concentração se explica, além de outros fatores, pela forte demanda de força de trabalho naqueles anos para a lavoura do café.”3

Em meio a esses problemas socioeconômicos, a crise de febre amarela, a morte da mãe e a uma desilusão amorosa, João de Camargo começa a ter visões espirituais. O filme mostra o futuro Preto Velho atormentado, num mundo, no qual forças espirituais pareciam estar tentando lhes dizer algo sobre o seu futuro. Amor, dor, desilusão e medo da morte, talvez fosse alguns dos sentimentos rotineiros na vida de inúmeros personagens que viviam em condições semelhantes ao de João de Camargo, no final do século XIX e início do século XX no Brasil.

A partir disso, João tem uma experiência espiritual, na qual se depara com Exú, Xangô, Nossa Senhora Aparecida e o Monsenhor João Soares do Amaral; que conhecera em vida. Nessa visão, João Soares diz a João de Camargo: “vai, levanta filho! Eis muita coisa para fazer. Vais construir aqui uma capela em homenagem a Senhor do Bonfim. E para de olhar para dentro. Sua vida vai ser ajudar os outros. Amenizar a dor. Curar os doentes.” 

Diante dessa experiência, João de Camargo começa a compor sua maneira de enxergar o mundo que o rodeia, num período de grandes mudanças para o país, onde estava havendo a consolidação da República do Brasil, políticas higienistas; baseadas no cientificismo europeu e a inusitada chegada da iluminação elétrica. 

Percebe-se uma clara assimilação, em sua maneira de enxergar o mundo espirital, de elementos do Candomblé, do Catolicismo e do Espiritismo, recém chegado da Europa. Durante a construção da Igreja Negra e Misteriosa da Água Vermelha, vê-se um ritual religioso, em que a estrela de Davi; símbolo judaico-cristã, ao lado de elementos da terra, ainda intimamente ligados à cultura indígena e africana, estão se misturando na cabeça de João Camargo, nascendo assim, uma nova forma de conceber o mundo imaterial.

Diante das mudanças na vida deste personagem e na do Brasil, o filme retrata o quanto João de Camargo se tornou uma pessoa conhecida, principalmente, entre os mais necessitados, atraindo assim, a ira da Igreja Católica e das políticas sanitaristas que combatiam o curandeirismo.

A igreja se incomodava com o sincretismo do novo líder espiritual, que trazia em grande medida, paz e conforto para uma população que se via excluída da nova República, recém instaurada.

O Estado o persegue através das políticas de higienização, que viam no curandeirismo um retrocesso às medidas de civilizar o Brasil nos padrões europeus. Vale lembrar, que nesse período, o Rio de Janeiro, por exemplo, estava vivendo movimentações populares, contrária a tais medidas, que ficaram conhecidas por Revolta da Vacina.

O filme retrata também, o quanto João de Camargo também não era aceito por quem cultuava a religiosidade vinda da África. Era acusado de fazer “reza de branco” e de querer virar branco. Para ele, “quem quisesse viver aqui [Brasil], tem que saber juntar tudo”. João era o amálgama de várias religiões. No entanto, não era aceito pelos seus irmão africanos, por estar negando seus antepassado, tão pouco pela Igreja Católica, que o chamava de herege. O Estado, acima de tudo, o acusava de curandeirismo.

Há uma cena no filme, em que percebe-se que a direção quis fazer uma analogia entre a figura de Cristo e a de João de Camargo. Ao voltar da prisão, e ver que os fiéis estava fazendo comércio em frente a Igreja da Água Vermelha, o líder espiritual, derruba todas as barracas que ali estavam, afirmando que ali não se vendia a palavra de Deus. Ato semelhante ao que Jesus fez em frente a Sinagoga de Carnafaum, ao expulsar os que vendiam e compravam produtos naquele lugar. (Marcos 11:15).

Apesar de priorizar em alguns momentos, elementos da cultura cristã, em detrimento de símbolos de outras religiosidades, o filme retrata bem, a vida do Preto Velho, que se tornou personagem importante da religiosidade brasileira, por ter levado fé, conforto e atenção aos que mais necessitavam.

1 Graduado em Licenciatura em História, pelo Centro Universitário Jorge Amado e Especialista em História Econômica e Social do Brasil, pela Faculdade São Bento da Bahia.
2 FRAGA FILHO, Walter. Encruzilhadas da Liberdade: histórias de escravos e libertos na Bahia (1870-1910). Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2006, p.245-282.   

3FAUSTO, Boris. História Concisa do Brasil. 2. ed, São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 2012. p.155.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

A Tarde e a Construção dos Sentidos: ideologia e política (1928-1931)


FERREIRA, Maria do Socorro Soares. A Tarde e a Construção dos Sentidos: ideologia e política (1928 – 1931). Salvador: UFBA, 2002, 125P.





                                                                                             Wagner Aragão Teles dos Santos 1



Desde o surgimento da imprensa brasileira em 1808, com a circulação dos primeiros números do periódico Correio Braziliense, feito em Londres e idealizado por Hipólito da Costa, que a imprensa brasileira vem fazendo o seu papel de grande formador da opinião pública nacional. No entanto, essa ferramenta, ou seja, o jornal, pode ser utilizado para propagação de ideias, com o objetivo de manter o pensamento popular vinculado à ideologia de quem controla esta ferramenta.

Baseando-se na afirmação marxista de que “as ideias dominantes, são, pois, nada mais que a expressão ideal das relações materiais dominantes” (MARX; ENGELS, 1932), vários historiadores vêm ao longo das últimas décadas, analisando o discurso dos periódicos que circularam no Brasil durante os séculos XIX e XX, com o intuito de decifrar os posicionamentos políticos, econômicos e ideológicos dos grupos que controlavam a produção e circulação desses jornais em várias partes do país.

Durante os anos da República Velha, aconteceu uma diversificação na imprensa brasileira. A política começa agora dividir espaço com matérias relacionadas ao discurso de “civilização” do país e da busca do progresso, em meio a uma grande inovação tecnológica, responsável pela melhoria  da qualidade gráfica dos jornais, como também, da diminuição dos custos de produção e consequentemente, do aumento das tiragens destes periódicos (ELEUTÉRIO, M. L, 2012).

Dentro deste contexto, a dissertação de Mestrado de Maria do Socorro Soares Ferreira, é baseada na análise do discurso da linha editorial do Jornal A Tarde. Periódico fundado por Ernesto Simões Filho em 1912.

A partir disto, a autora tenta identificar os posicionamentos políticos, econômicos e ideológicos, tendo como fontes primárias, exclusivamente, as páginas do jornal.

Segundo a autora, o jornal A Tarde, desde sua fundação, sempre esteve ligado a um grupo político na Bahia, sendo base de sustentação e o porta-voz de seus interesses políticos e econômicos no estado, tendo como objetivo, a preservação de seus privilégios.
Dentro desta perspectiva, para analisar e entender o discurso exposto nas páginas do jornal, assim como, compreender as relações políticas existentes na Bahia da primeira metade do século XX, a autora se baseia na noção de poder teorizada por Michel Foucault, que compreende o político como “elemento que tece as mais diversas relações sociais em todos os níveis”. Identificando o poder de uma forma mais ampla e constituída ao longo da história, deslocando assim, as investigações da esfera do estado, ou seja, de algo institucionalizado.

Para compreender as questões ideológicas analisadas pela autora em sua pesquisa, foi utilizado o conceito marxista de ideologia, ampliado pelas análises de Karl Mannheim no qual entende a de ideologia como “estrutura conceitual dos modos de pensar, definidos conforme as diferentes situações de vida dos sujeitos sociais implicados na sua visão de mundo”.

A partir disso, ao ampliar o conceito de ideologia, foi possível identificar, além dos interesses imediatos do grupo político que compunha o Partido Republicano da Bahia (PRB), ligado ao jornal A Tarde, como também, o modo de pensar da elite política e letrada da época.

A autora divide o trabalho em três capítulos, nos quais esclarece posicionamentos sociais, políticos e econômicos distintos de uma elite política baiana, que tinha uma visão de progresso alicerçada no pensamento iluminista, e contraditoriamente, pautada em valores conservadores e racistas, típicos do antigo regime político vigente no país até o século XIX.

No primeiro capítulo, a autora faz uma reconstituição do cenário político baiano no final da República Velha, analisando os interesses políticos do grupo apoiado por Simões Filho e o seu jornal, buscando entender a significação que o jornal A Tarde fazia do posicionamento da Aliança Liberal, liderada por Getúlio Vargas e consequentemente, do “movimento revolucionário de 1930”.

Ao reconstruir o cenário político desta época, percebe-se que o jornal A Tarde, desde sua fundação, período em que Ernesto Simões Filho era aliado de J. J. Seabra, sempre teve uma grande influência na política da Bahia.

Com o enfraquecimento do Partido Republicano Democrata (PRD), e de seu líder J. J. Seabra, no final da Primeira República, emergem duas forças políticas. Uma liderada por Góes Calmom e a outra, liderada por Otávio Mangabeira, aliado de J. J. Seabra até 1919.

Estes grupos, no entanto, se aliam  em 1927 para a fundação do Partido Republicano da Bahia (PRB). Partido que terá os interesses políticos e econômicos de seus membros, defendidos nas páginas  do jornal A Tarde, e que se colocará como uma força política oposta ao seabrismo na Bahia por toda segunda década do século passado.

Maria Ferreira ressalta, porém, que a oposição política no período da Primeira República, não significava divergências ideológicas, e sim, interesses e disputas pelo poder na Bahia, sem resultar em posicionamentos ideológicos distintos. A aliança política na formação do Partido Republicano da Bahia (PRB), em que ex-seabrista, calmonistas e mangabeiristas se unem como força oposicionista, demonstra claramente os interesses deste grupo. “A oposição portanto, era constituída pelos políticos que não estavam no poder, na 'situação', e batalhavam por estar”.

Dentro deste contexto, o jornal A Tarde se coloca como grande oposição à José Joaquim Seabra, aliado de Ernesto Simões Filho até 1913, quando este se desligara do Partido Republicano Conservador (PRC). Segundo a autora, o posicionamento crítico do jornal, diante da imagem decadente de J. J. Seabra, era uma maneira de mostrar o isolamento político do velho oligarca, e que se caracterizava “como fruto da ação cívica dos adversários”.

Para o jornal, Seabra fora um político de desempenho administrativo desastroso e que praticava uma “politicagem vergonhosa”, sendo o culpado de ter tornado a Bahia um “estado sem crédito”. Era chamado diariamente pelo vespertino, de “político antigo”, que dizia “inverdades sem proveito algum” e que não se conformava de ter saído do cenário político. Seabra e seus aliados eram chamados pelo jornal de “mentirosos, interesseiros, incompetentes e ladrões”.

Havia evidentemente, uma clara tentativa de eliminar toda a força política de Seabra no Estado, para que houvesse a manutenção da hegemonia da nova oligarquia política dominante do momento, de que Simões Filho fazia parte, como um dos grandes lideres, e que detinha o poder da informação através das folhas do jornal A Tarde.

Ao investigar o significado da “Revolução de 1930”, a autora identifica uma resistência da elite política baiana em aceitar o “movimento revolucionário”.

A autora explica que apesar da grande parte dos estados do Norte do país terem aderido ao movimento de 1930, a Bahia se manteve resistente, pois a nova hegemonia política liderada pelo Partido Republicano da Bahia, via neste movimento a possibilidade de perda desta hegemonia conquistada nos últimos anos. O grupo liderado por calmonistas e mangabeiristas apoiara  Júlio Prestes à Presidente da República, para as eleições de 1º de maio de 1930, tendo como vice, o candidato baiano e seu aliado político, o ex-seabrista, Vital Henrique Batista Soares. Assim, se mantiveram resistentes quando o “movimento revolucionário estoura em outubro daquele ano.

Durante a campanha eleitoral da Aliança Liberal, liderada por Getúlio Vargas, o jornal A Tarde considerava a candidatura “idealista” e “obra de ficção fadada à morte”. Aderi-la era um ato de “insignificância política. As páginas do periódico, mais uma vez trabalhara a favor do grupo político no qual o seu dono faz parte. Evidenciando o interesse da manutenção do status quo, da elite política dominante.

A Tarde se colocava como grande defensor da “ordem” e da razão, alicerçada na ideologia liberal burguesa, única capaz de “patrocinar o equilíbrio social”. Com o intuído de desqualificar o adversário, o periódico dizia que o liberalismo da Aliança Liberal era “fruto de um programa anarquista”, que visava pôr em risco a segurança das nossas instituições republicanas.

Durante o avanço das forças revolucionárias no sul do país, o jornal se mantinha indiferente, informando aos eleitores que os rumores das vitórias do movimento eram inverídicas, e que os “rebeldes” estavam recuando, na clara tentativa de acalmar a população baiana. Mesmo depois da deflagração do “movimento revolucionário”, o jornal, como porta-voz do grupo político liderado por Otávio Mangabeira, continuava dando sustentação ideológica, ao qualificar o movimento como uma “simples revolta”, que era “raquítica”, “inconstitucional, “sem ideias e sem verdadeiros estadistas”. Assim, o jornal A Tarde tecia a sua visão e seus significados sobre a “revolução de 1930, desqualificando assim o movimento, com o intuito da manutenção do atual grupo político no poder.

No segundo capítulo, Maria Ferreira analisa os matizes ideológicos no discurso do A Tarde diante das representações de alguns sujeitos sociais no final da década de 1920.

Para a autora, o jornal idealizava uma sociedade baseada nos princípios liberais, e se via no papel de “ensinar” a sociedade baiana a seguir aos padrões de “civilização”.

Com desenvolvimento tecnológico a partir da década de 1920, tendo o rádio como catalizador da propagação da informação, as elites políticas e econômicas vêm os meios de comunicação de massa, como ferramenta fundamental para se manterem no poder. Dessa maneira, idealizava-se um modelo contraditório de sociedade progressista, em que a “ordem” e a “moral” era fundamental para o desenvolvimento da sociedade, tendo o discurso  conservador, respaldado em autoridades antigas, em que o padrão de referência era baseado em hábitos do “mundo civilizado”.

O vespertino baiano, via na mudança da estética urbana de Salvador um elemento de progresso e civilidade, em que a eliminação da “feição feia” da cidade, era fundamental para os novos padrões estéticos. Protestava a favor da derrubada da igreja da Sé, pois, segundo seus articulistas, a igreja era considerada um “velho templo” e que a sua derrubada serviria para a realização de um “complexo programa de aformoseamento e higiene” da cidade de Salvador.

Vale relembrar que esse discurso de ordem e de progresso não era exclusividade nem da Bahia, nem muito menos do jornal A Tarde. Os homens que proclamara a República em 1889, se baseavam nesse discurso positivista, necessário, segundo eles, para o desenvolvimento da sociedade brasileira (FAUSTO, B, 2012).

Nesse contexto, A Tarde se reservava ao “papel pedagógico”, acreditando ser também responsável pela educação da população, dentro do conceito de progresso de uma sociedade liberal. Não bastava apenas a mudança física da Bahia, mas também, da “educação do povo da cidade”. Precisava “educar” a população baseada no projeto político e ideológico da oligarquia dominante, pois as “camadas populares” precisavam de “orientações”, necessárias para o bem-estar social.

Apesar de deixar claro que existem “propósitos deliberados e intencionais no ato comunicativo”, que atendem interesses específicos de um grupo, a autora não deixa claro, quais eram os interesses específicos da oligarquia dominante na Bahia, em relação ao discurso progressista e modernizador difundidos nas páginas do jornal. No entanto, ao tratar do imaginário político construído pelo periódico, a autora nos conta que a neutralidade política, era algo inexistente na imprensa baiana, pois, cada grupo jornalistico representava determinado segmento dominante, mas “nunca a totalidade dos interesses da classe dominante”. Sendo assim, o discurso político era alinhado aos interesses de um determinado grupo.

Ao investigar os significados que o jornal fazia sobre o papel da mulher na sociedade, identificou-se um conservadorismo, típico da sociedade machista do seu tempo e menos alinhada com o discurso democrático e liberal, propagado pelas páginas do A Tarde.

A mulher, na primeira metade do século XX, ainda era vista como um ser doce e maternal, sendo encarado com estranheza a inserção da mulher no mundo do trabalho. Para  alguns articulistas do jornal, ainda era muito cedo para as mulheres adquirirem o direito ao voto, pois, dentre outras coisas, havia a possibilidade, a partir da eliminação das desigualdades entre homens e mulheres, da destruição da sociedade e da maternidade. Para a autora, este posicionamento em relação às liberdades da mulher, era típico do liberalismo brasileiro, que repudiava ideias liberais que colocassem em risco valores há tempos constituídos.

Dentro dessa visão liberal conservadora, o jornal fazia representações distintas de negros e índios. Eram tratados como inferiores e incivilizados, demonstrando o desrespeito  à igualdade entre os cidadãos. O descontentamento era explícito, como quando se incomodaram com a aplicação de verbas públicas para atender necessidades indígenas, acreditando não ser correto a aplicação de verbas públicas em projetos relacionados às populações indígenas.

Maria Ferreira explica que o jornal expressava seu posicionamento racista, deixando transparecer sua “crença na hierarquização das raças”, ao menos tempo que pregava, contraditoriamente, a igualdade entre as pessoas.

No terceiro e último capítulo, a autora analisa o discurso do jornal diante dos interesses e problemas econômicos, e de suas possíveis soluções.

O jornal deixava evidente sua insatisfação com a inferioridade material do Brasil em relação a outras potências econômicas. Acreditava na necessidade de mudança na política econômica do país. No entanto, de maneira contraditória, pregava a modernização da produção, através do desenvolvimento tecnológico, ao mesmo tempo que defendia “a velha forma de exploração econômica, ou seja, a agricultura”. Partindo deste princípio, o jornal acreditava que o desenvolvimento tecnológico chegaria aos campos, possibilitando assim, o aumento da produção, e consequentemente, o desenvolvimento do país, resolvendo em grande medida, os nossos problemas econômicos.

Para a autora, os interesses imediatos de uma elite econômica que vivia da exploração agrícola, eram os responsáveis pelo posicionamento do jornal em relação à política econômica a ser adotada.

Alinhado com essa forma de pensar a economia brasileira, onde o setor agrícola é visto como o mais importante, o jornal expusera em 1931, sua preocupação com a vitalidade da agricultura baiana, ao defender a diminuição dos impostos sobre o fumo, assim como fez também, em 1928, ao defender incansavelmente, a intervenção do estado, através de subsídios ao cacau. Demonstrando assim, sua contradição em relação às ideias liberais largamente defendidas em suas páginas.

Ao esclarecer alguns dos significados construídos pela elite política e econômica baiana da primeira metade do século XX, este trabalho deixa claro a necessidade de continuarmos investigando os discursos ideológicos expostos nas páginas dos periódicos que foram produzidos em terras brasílicas desde 1808, por evidenciar os interesses de grupos políticos e econômicos que controlam a informação ao longo dos tempos. Contribuindo também, com as pesquisas que visam analisar estes discursos e interesses, camuflados, em grande medida, na imprensa escrita e televisiva de todo o país.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Cora: lições de comportamento feminino na Bahia do século XIX.



 Reis, Adriana Dantas. Cora: lições de comportamento feminino na Bahia do século XIX. Salvador: FCJA; Centro de Estudos Bahiano da UFBA, 2000.




Wagner Aragão Teles dos Santos[1]


Este é um livro que se debruça sobre os debates relacionados às propostas de educação feminina na Bahia do século XIX. Dividida em 4 partes, a obra analisa as polêmicas geradas pelas Cartas Sobre a Educação de Cora, publicadas na segunda metade do século XIX, que estabelecia novos preceitos para educação da mulher da elite baiana, de acordo com a perspectiva civilizadora, influenciada pelo pensamento iluminista. Nessa perspectiva, a autora tenta entender o porquê do desencadeamento dessas polêmicas entre os homens letrados da Bahia. Na introdução do livro, a autora expõe as inúmeras fontes utilizadas e os arquivos visitados durante a pesquisa, evidenciando assim, o exaustivo trabalho realizado e todo seu rigor metodológico.
No primeiro capítulo, a autora tem como objetivo, retratar os espaços sociais ocupados pela mulher da elite feminina baiana antes e depois da chegada da Família Real em 1808. Analisado assim, a partir do olhar dos viajantes europeus, o contraste dos costumes femininos em Salvador, comparados com os das mulheres da Europa.
A partir dessa análise, a autora percebe que antes da chegada da Corte portuguesa, os espaços lúdicos para as mulheres da elite baiana eram limitados, basicamente, às festas religiosas. Como também, apesar de serem influenciadas, já nesse período, pela cultura da moda francesa, percebe-se que os padrões de moda e de hábitos de socialização não estavam em consonância com os da Europa do final do século XVIII e início do século XIX. Assim sendo, as mulheres brasileiras ainda viviam num mundo recluso onde a casa representava seu pequeno espaço de liberdade, pois, o espaço público, revelava-se como espaço de aparência e ostentação.
Com a chegada da corte em 1808, a autora identifica que os espaços de socialização da mulher começam-se ampliar, diante das festas promovidas, principalmente, pela família Real, no Rio de Janeiro. Porém, na Bahia, identifica-se que ainda havia uma sociabilidade limitada, mesmo nos anos do primeiro Reinado.
Durante o Segundo Reinado, os espaços lúdicos em Salvador se tornam mais comum, transformando a cidade em um centro cultural deste período. No entanto, Adriana Reis, deixa claro que mesmo com a ampliação desses espaços, as mulheres eram sempre conduzidas por um “braço masculino” tendo seu comportamento vigiado por todos, pois, qualquer deslize poderia comprometer a reputação da mulher, seja ela, solteira ou casada.
Neste mesmo capítulo, há uma tentativa de reconstrução dos espaços de socialização e dos hábitos cotidianos da mulher da elite do Recôncavo e do sertão baiano. Nessa investigação, em linhas gerais, a autora percebe que as mulheres dessas localidades estavam de uma maneira, ou de outra, sempre em contato com os hábitos e costumes praticados pelas mulheres da elite de Salvador, demonstrando que estavam atentas às mudanças sócio-culturais que aconteciam na capital baiana.
No segundo capítulo, Adriana Reis, de maneira muito lúcida, analisa a forma com que a igreja tentou vincular a imagem da mulher com a da Virgem Maria, e de que maneira a igreja reagiu contra as novas formas de socialização da elite feminina.
A igreja insistia que o cristianismo havia reabilitado a mulher do pecado cometido por Eva, no Jardim do Éden. Acreditando assim, que a mulher ideal era baseada na imagem da Virgem Maria.
 Nesta perspectiva, a mulher deixava de ser escrava, para se tornar companheira do homem. No entanto, essa mulher deveria ser submissa ao pai, ao marido e a Deus. Sendo assim, educada dentro dos princípios cristãos e preocupada  com a caridade aos mais necessitados.
Dentro deste contexto, a autora nos conta que a luta contra a influência europeia na educação da mulher da elite baiana, levou o arcebispo da Bahia, D. Romualdo Seixas, implementar as Irmãs de Caridade na Bahia, com o objetivo de cuidar da educação das mulheres baianas, pois, até a metade do século XIX, os conventos eram praticamente, os únicos espaços educacionais para a mulher, limitando-as dessa maneira, à reclusão.
Paralelo às ideias da igreja, e a partir da fundação da Faculdade Bahiana de Medicina em 1808, os discursos médicos de higienização e de racionalismo iluminista, pautados no  progresso e  na civilização, começam a ter grande influência na sociedade baiana nesse período, tendo como objetivo, tentar padronizar e racionalizar o comportamento feminino. Nesse sentido, o livro deixa claro que apesar do discurso iluminista dos médicos, as suas ideias de moral estavam alinhadas com as da igreja católica.
Enquanto a igreja criticava os novos trajes, os bailes e a vaidade das “moças dos sobrados”, tendo como justificativa, a moral cristã, os médicos os condenavam, a partir de argumentos científicos e higienistas. Porém, ao tratar do celibato, os médicos se colocavam inteiramente contra, argumentando que era uma prática que causava problemas físicos e morais, contrariando assim, os preceitos da igreja e consequentemente, do cristianismo.
No terceiro capítulo do livro, ao analisar o contexto em que as Cartas Sobre a Educação de Cora foram publicadas, Adriana Dantas, reconstrói de forma sucinta, a história do médico, José Lino Coutinho e de Ildefonça Laura Cezar, pais da menina Cora. A partir disso, o livro mostra também, a influência do pensamento iluminista na formação de Lino Coutinho, autor das cartas.
Ao analisar as cartas, a autora percebe que elas foram dividas em quatro fases, e que foram enviadas em cada momento distinto da vida de Cora, para que fosse um manual de  educação da menina. Sendo que a 1ª fase, correspondia do nascimento aos 7 anos de idade, se preocupando assim, com uma educação física e moral, dando pouca atenção para educação religiosa, enquanto que a 2º fase, que correspondia dos 7 ao 14 anos, tinha como objetivo uma educação que possibilitasse a diminuição do “fogo natural da idade”.  Nessa fase, diferentemente dos costumes da época, Lino recomendava o aprendizado das letras: gramática; música; história e francês. A educação religiosa, tinha como princípio, o conhecimento de Deus através da natureza, baseado no pensamento iluminista.
As cartas enviadas para tratar da 3ª fase da educação de Cora, tinha como um dos objetivos principais, dentre outras coisas, cuidar deste “tempo das paixões”, que segundo Lino Coutinho, todo cuidado neste período era pouco. A quarta e última fase, era a fase definida por Lino, como a fase da idade viril.
No último capítulo, o livro se debruça em torno do debate gerado pela publicação das cartas, na sociedade baiana. Analisando os inúmeros periódicos que foram publicados em Salvador neste período, a autora, demonstrando incrível rigor metodológico ao analisar as fontes, nos proporciona um delicioso debate entre os médicos da Faculdade Bahiana de Medicina e os representantes da igreja Católica, sobre a educação feminina.
Nesse cenário, a autora chega a conclusão, de que apesar das propostas inovadoras de José Lino Coutinho e de alguns representantes da classe médica local, os seus objetivos estavam em consonância  com o pensamento da igreja, ao criticar alguns dos novos costumes da elite feminina baiana. Dessa maneira, não havia a intenção de mudar o papel feminino na sociedade baiana, e sim, o de dar novos padrões para regular os seus espaços de socialização. Nesse sentido, a educação da mulher, tanto pelo viés médico, quanto pelo o olhar da igreja, tinha como objetivo principal, formar uma boa mãe, esposa e dona do lar.
A partir de tudo que foi analisado, podemos afirmar, que este livro é obra indispensável para os interessados em pesquisar o comportamento e a educação da mulher baiana no século XIX, fornecendo inúmeras informações necessárias para a discussão de gênero na área de História. Contribuindo assim, para o entendimento das construções históricas referente à natureza feminina.


[1] Wagner Aragão Teles dos Santos é Especialista em História Social e Econômica do Brasil e Pós- graduando do curso de História da Bahia pela Faculdade São Bento da Bahia.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A Importância do Museu para a Construção do Saber na Escola Pública



A importância do museu para a construção do saber na escola pública




Wagner Aragão Teles dos Santos[1]



Resumo: Este presente trabalho visa discutir a importância das visitas aos museus para o processo de aprendizagem na escola pública. Contribuindo assim, para a reflexão sobre as políticas públicas voltadas para a área de educação, que ajude na ampliação da utilização dessa ferramenta histórico-didático-pedagógica.


Palavras-Chave: Educação; Patrimônio Histórico; Museu; Memória.



Não é difícil encontrarmos no Brasil alguém que nunca visitou um museu em toda a sua vida. Na verdade, no nosso país esse é um hábito pouco praticado pela população em geral.
As pessoas geralmente, não enxergam os museus como espaço de construção do saber histórico e social, e sim, como “um lugar onde existem coisas velhas, objetos velhos”.[2]
Os museus históricos, se bem utilizados, são uma fonte quase inesgotável do saber. Espaço de produção e socialização do conhecimento, de identificação do sujeito com a sua história e de conscientização da preservação do patrimônio cultural.
Segundo Ana Ramos Rodrigues, os objetos que se encontram nos museus, “estão carregados de historicidade”.[3] No entanto, para ela, “é preciso exercitar o ato de ler os objetos, de observar a história que há na materialidade das coisas”[4]. Ou seja, é preciso um olhar crítico, que possibilite a leitura do que está subentendido no objeto ao qual está se olhando, em que a criticidade, o questionamento e a obtenção de respostas, sejam elementos fundamentais  na visita ao museu, para que também, a memória elitista preservada nos inúmeros museus deste país, seja questionada pelas classes que se sintam excluídas.
Corroborando com essa linha de pensamento, Caiuá Al-Alam nos diz, que o museu não é apenas um espaço para nos preocuparmos com as coisas que aconteceram no passado, e sim, “porque elas foram como foram”.[5] A partir disso, devemos pensar o museu como espaço de questionamento do passado- não apenas para conhecermos o nosso passado- mas, para questionarmos o passado para sabermos porque as ações humanas aconteceram da maneira que aconteceram, lançando luz às contradições existentes na sociedade contemporânea.
Para que esse olhar crítico diante das peças existentes nos museus seja utilizado pela população em geral, devemos pensar em primeiro lugar, na valorização dos museus como patrimônio cultural. E essa valorização, acreditamos que deva começar na escola, para que o indivíduo desde muito cedo perceba as relações existentes entre o patrimônio cultural e a sua trajetória como sujeito histórico.
“A educação patrimonial é um instrumento de “alfabetização cultural” que possibilita ao indivíduo fazer a leitura do mundo que o rodeia, levando-o à compreensão do universo sóciocultural e da trajetória histórico-temporal em que está inserido. Este processo leva ao reforço da autoestima do indivíduo e comunidades e à valorização de sua cultura, compreendida como múltipla e plural”.[6]

A partir disso, o aluno se identifica com o patrimônio cultural e preserva algo que é comum à toda a comunidade em que está inserido, sendo agente propagador da preservação da memória, do conhecimento adquirido e do olhar crítico aprendido com a observação das peças existentes nos museus.
Dentro desta perspectiva, as visitas aos museus históricos deveria ser algo comum na rede pública de ensino de todo o país, estimulando assim, o interesse posterior do cidadão com seu patrimônio histórico-cultural. Segundo Ana Ramos Rodrigues, “uma visita pode representar pouco, mas este pouco poderá ser o estímulo para que ocorram outras visitas posteriores e estimulem a construção de novos conceitos”. No entanto, ainda percebemos resistência dos professores e da direção escolar ao se tratar de visitas à museus, assim como, observamos a falta de políticas educacionais voltadas para aproximar o museu da escola.
Há uma necessidade de se implementar no país, uma política educacional em que a visita ao nosso patrimônio histórico se torne mais uma, das inúmeras ferramentas importantes na prática docente. É necessária uma mudança da comunidade escolar ao se tratar desse assunto. Ana Ramos Rodrigues nos conta que:

“Desenvolvendo uma maior conscientização cultural para professores, alunos e todos os envolvidos, não ficando apenas o museu desenvolvendo seu trabalho e a escola agindo de forma passiva. É necessário incentivar um maior desenvolvimento das partes, para proporcionar aos alunos, um acesso maior a esse tipo de cultura”.[7]


A necessidade à cultura por parte dos alunos da escola pública é uma questão extremamente delicada, pois, apenas depois de entendermos os aspectos sócio-econômicos do nosso país, poderemos entender o porquê da indiferença da grande maioria da sociedade brasileira em relação ao patrimônio histórico e cultural.
Os alunos que estudam nas escolas públicas do nosso país, em sua grande maioria, fazem parte da classe menos favorecida economicamente da nossa sociedade, que dentre outras necessidade, carecem por acesso à cultura, informação e lazer.
Segundo Ana Ramos Rodrigues, “no Brasil, pesquisas mostram que, na maioria das vezes, é somente por meio da escola que crianças e jovens das classes em desvantagens econômicas visitam as instituições culturais”.[8]
Assim sendo, podemos perceber o quanto a escola é importante para a mudança de pensamento da nossa sociedade em relação à valorização e preservação do patrimônio histórico-cultural, assim como, a identificação do indivíduo e da comunidade com a memória que está preservada nestas instituições.
Dentre os inúmeros problemas existentes na escola pública brasileira, o distanciamento entre escolas e museus é mais um obstáculo que nossa sociedade deve ultrapassar para transformá-la num verdadeiro espaço de socialização e construção do conhecimento.        





Referências:


Al-ALAM, Caiuá Cardoso; ARAÚJO, Edson Souza de; PEREIRA, Kaiene de Carvalho.  Museus e educadores: uma reflexão sobre o uso de museus como ferramenta pedagógica. Revista Latino-Americana de História. V. 2, n. 6, p. 553-168, ago. 2013.

PACHECO, Ricardo de Aguiar. Educação, Memória e Patrimônio: ações educativas em museus e o ensino de História. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 30, nº 60, p. 143-154, 2010.

RODRIGUES, Ana Ramos. O Museu Histórico como Agente de Ação Educativa. Revista Brasileira de História e Ciências Sociais. v. 2, n. 4, p.215-222.

RODRIGUES, Ana Ramos.  O museu e o ensino de história. Disponível em: http://www.revistamuseu.com.br. Acesso em: 22 out 2013.


[1] Wagner Aragão Teles dos Santos é graduado em Licenciatura em História pelo Centro Universitário Jorge Amado e especialista em História Social e Econômica do Brasil pela Faculdade São Bento da Bahia.
[2] RODRIGUES, Ana Ramos. O Museu Histórico como Agente de Ação Educativa. Revista Brasileira de História e Ciências Sociais. v. 2, n. 4, p.217.
[3] RODRIGUES, Ana Ramos. O Museu Histórico como Agente de Ação Educativa. Revista Brasileira de História e Ciências Sociais. v. 2, n. 4, p. 217, dez. 2010.
[4] idem.
[5]Al-ALAM, Caiuá Cardoso; ARAÚJO, Edson Souza de; PEREIRA, Kaiene de Carvalho.  Museus e educadores: uma reflexão sobre o uso de museus como ferramenta pedagógica. Revista Latino-Americana de História. V. 2, n. 6, p. 556, ago. 2013.
[6]PACHECO, Ricardo de Aguiar. Educação, Memória e Patrimônio: ações educativas em museus e o ensino de História. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 30, nº 60, p. 149, 2010.
[7]RODRIGUES, Ana Ramos.  O museu e o ensino de história. Disponível em: http://www.revistamuseu.com.br. Acesso em: 22 out 2013.
[8] idem.