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quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A política de valorização do café nos tempos da República velha


A política de valorização do café nos tempos da República Velha





Wagner Aragão Teles dos Santos[1]



Resumo: Este presente trabalho visa analisar os mecanismos de proteção criados pelo estado brasileiro e o setor financeiro internacional, objetivando regular o preço do café no mercado mundial. Investigando assim, as causas e efeitos dessa política protecionista.


Palavras-Chave: Economia cafeeira, Superprodução, política de valorização, compra de excedentes.





Ao longo de toda sua história, o Brasil se constituiu num país fornecedor de produtos agrícolas para o resto do mundo, tornando assim, o agro negócio sua atividade econômica mais importante.
Durante o período de colonização, o açúcar foi principal produto dessa economia agrícola, tendo papel fundamental durante toda a história do país, até os dias atuais.
 No entanto, a partir da segunda metade do século XIX, o café, desponta como um produto de alto valor comercial para o mercado brasileiro, tornando-se mais tarde, o produto de exportação mais importante da economia do país.  
O mercado mundial do café no final do século XIX era tão favorável aos empresários brasileiros, que segundo Celso Furtado, o Brasil controlava ¾ da oferta mundial do produto.[2]    
Porém, com a crise norte-americana de 1893 e a depressão ocorrida no mercado mundial em 1897, o preço do café, que até então estava elevado por conta da procura do produto, despenca consideravelmente. Enquanto a saca do café em 1893 era vendida por 4,09 libras, em 1899 já havia caído para 1,48 libra.[3]
A partir dessa perspectiva, começa-se a elaborar no Brasil políticas protecionistas para a cultura do café, visando a valorização do preço do produto no mercado mundial.
Em 1906, num convênio celebrado em Taubaté, a solução encontrada pelas autoridades das regiões produtoras de café e seus empresários, para a proteção dos preços do café foi, a retirada de milhões de sacas do produto, com o auxílio de grupos de investimentos internacionais, objetivando o aumento do preço do café através da especulação financeira.
Essa política de valorização negociada em Taubaté, segundo Celso Furtado, consistia basicamente, na intervenção do governo comprando excedentes, visando equilibrar o preço do produto. Estabeleceu-se também que essas compras se fariam com empréstimos estrangeiros, além da criação de um novo imposto sobre o café, seguido de uma política de desencorajamento da expansão das lavouras cafeeiras.[4]
Caio Prado Jr. nos relata em seu livro, História econômica do Brasil, que: “no período de 1906 e 1910 tinham sido retirados do mercado livre cerca de 8.500.000 de sacas”.[5] Demonstrando assim, o quanto foi intensiva a tentativa dos empresários brasileiros de controlar os preços do café no cenário mundial.
No entanto, para Celso Furtado, o alto nível dos preços do café no mercado mundial, possibilitada pela política de valorização, atraía cada vez mais inversões de capitais para o setor cafeeiro, criando assim, um novo problema:


Mantendo-se firmes os preços, era evidente que os lucros se mantinham elevados. E também era óbvio que os negócios do café continuariam atrativos para os capitais que neles se formavam. Em outras palavras, as inversões nesse setor se manteriam em nível elevado, pressionando cada vez mais sobre a oferta.
Dessa forma, a redução artificial da oferta engendrava a expansão dessa mesma oferta e criava um problema maior para o futuro.[6]


Também para Caio Prado Jr. essa política de valorização do café estimulava cada vez mais a produção cafeeira, pois, “entre 1918 e 1924 o número de cafeeiros paulistas passará de 828 milhões para 949. Repete-se novamente a velha história da superprodução”.[7]
A alta dos preços, manipulada artificialmente através da retenção de estoques tornava o setor cafeeiro muito atrativo, impedindo  inversões de capital para outras áreas da economia brasileira, fazendo com que o capital adquirido com os lucros do negócio cafeeiro seja novamente investido nessa cultura agrícola.[8]
No entanto, a partir da segunda metade da década de 20 e principalmente depois de 1929, os estoques de café aumentam cada vez mais, prejudicando a economia cafeeira por não ter aonde escoar a produção, cada vez mais, retida pela política de valorização. Para Caio Prado Jr:


Aparentemente a situação da lavoura era próspera: os altos preços do café prometiam larga margem de lucros. Prometiam apenas, porque efetivamente não se vendia e exportava sendo uma parte da produção. O reto permanecia retido à espera de oportunidade que nunca chegará. O pior é que depois de alguns anos de funcionamento do plano, não havia mais como sair da situação artificial e precária que se criara.[9]


Entre os anos de 1924 e 1929, “só em São Paulo, o número de cafeeiros subirá dos 949 milhões que o vimos em 1924, para 1.155.000.000 em 1930”.
Enquanto os estoques e a produção do café aumentam consideravelmente, a capacidade de absorção desse produto no mercado mundial diminui vertiginosamente por conta da crise financeira de 1929, complicando a situação do setor cafeeiro no Brasil.
Para Celso Furtado, a solução mais adequada para resolver o problema do setor do café, seria pôr em prática uma das medidas negociadas em Taubaté em 1906. Deveria desestimular o aumento do cultivo do café no país.

A solução, aparentemente, estaria em evitar que a capacidade produtiva continuasse crescendo, ou que crescesse mais intensamente como efeito da estabilidade dos preços num nível elevado. As medidas tomadas nesse sentido foram porém, infrutíferas.[10]


Segundo Celso Furtado, outras áreas da economia brasileira deveriam ser atrativas para o capital gerado na indústria cafeeira.:

Teria sido necessário que se oferecessem ao empresário outras oportunidades, igualmente lucrativas, de aplicação dos recursos que estavam afluindo continuamente a suas mãos sob forma de lucros.[11]         


            Ou seja, deveria ter sido estimulada por parte do estado, outros setores da economia brasileira, para que se tornassem mais atrativos para os capitais gerados no setor cafeeiro, para que assim, houvesse inversões de capitais gerados na indústria cafeeira, para outros setores da economia brasileira, possibilitando a diminuição da expansão do cultivo do café no país. Assim sendo, facilitaria o controle dos preços do café no mercado internacional e diminuiria os estoques invendáveis, retidos ao longo de toda essa política de valorização.
          Portanto, o estimulo à diminuição da produção cafeeira nunca aconteceu efetivamente, criou-se na verdade uma “bolha” produtiva, na qual a produção era cada vez mais estimulada pelos altos lucros gerados pelo preço do produto no mercado mundial, possibilitado pela retenção deste, em estoques cada vez maiores, fazendo com que o governo brasileiro a partir da década de 30 tomasse decisões mais drásticas para evitar uma crise maior no setor cafeeiro.
          Na verdade, Caio Prado Jr. nos explica que, durante essa política de valorização do café, o setor que realmente ganhou com isso foi o financeiro:


Enquanto os agentes financeiros da valorização usufruíram assim largamente a operação, os produtores, embora obtivessem durante alguns anos melhores e mais estáveis preços, arcarão depois com todo o ônus dela. São eles que assumem a responsabilidade das grandes dívidas contraídas para executá-la.[12]
                                         


            Diferentemente do que poderíamos supor, os produtores de café não foram os maiores beneficiados pela política de valorização do produto, e sim, o setor financeiro.
            Para Prado Jr. “os momentâneos proveitos da valorização custaram muito caro para os produtores e à economia brasileira em geral.”[13] Demonstrando assim, o quanto foi prejudicial à nossa economia ao longo da primeira metade do século XX.







[1] Wagner Aragão Teles dos Santos é graduado em Licenciatura em História pelo Centro Universitário Jorge Amado.
[2] FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. 34. ed. São Paulo: Companhia das letras, 2007. p. 252.
[3] Ibid. p.253.
[4] Ibid. p.254.
[5] JÚNIOR, Caio Prado. História Econômica do Brasil. 26. ed. São Paulo: Ed. Brasiliense.
[6] FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. 34. ed. São Paulo: Companhia das letras, 2007. p.255.
[7]JÚNIOR, Caio Prado. História Econômica do Brasil. 26. ed. São Paulo: Ed. Brasiliense.
[8] FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. 34. ed. São Paulo: Companhia das letras, 2007. p.256.
[9] JÚNIOR, Caio Prado. História Econômica do Brasil. 26. ed. São Paulo: Ed. Brasiliense.

[10] FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. 34. ed. São Paulo: Companhia das letras, 2007. p.255.
[11] Ibid. 256.
[12] JÚNIOR, Caio Prado. História Econômica do Brasil. 26. ed. São Paulo: Ed. Brasiliense.
[13] Ibid.

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