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sábado, 29 de setembro de 2012

Encruzilhadas da Liberdade


                                  
FRAGA FILHO, Walter. Encruzilhadas da Liberdade: histórias de escravos e libertos na Bahia (1870-1910). Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2006, p.245-282.                           
                            

                                                        
                                                                                                                   Wagner Aragão Teles dos Santos


No capítulo 7 do livro Encruzilhadas da Liberdade, Walter Fraga descreve a trajetória de ex-escravos nos engenhos do Recôncavo baiano após a abolição da escravidão em 1888, analisando os motivos que os levaram a permanecer na região onde foram submetidos aos terríveis intempéries do período da escravidão.
Observando os nomes de moradores de engenhos internados no Hospital da Santa Casa de Santo Amaro, entre os anos de 1906 e 1913, o autor chegou a conclusão que 80,6% dos negros e mestiços internados no hospital residam nos engenhos em que nasceram, indicando baixo número de emigração de ex-escravos para outras regiões.
Segundo Fraga Filho, inúmeros motivos fizeram com que os libertos recorressem a alternativa de permanecer na região ou mesmo, na propriedade do seu antigo senhor. Dentre elas estavam as condições climáticas adversas na Bahia entre os anos de 1888 e 1890, responsáveis pelo desemprego, a carestia e a fome. O medo da repressão policial aumentada com o fim da escravidão, que poderia facilmente prender um simples forasteiro como “suspeito” ou vagabundo.
No entanto, o autor salienta “que nem sempre o desejo de quebrar os laços de dependência com os antigos senhores estava associado à migração para outras localidades”. Muitos viam na permanência na propriedade do antigo senhor, alternativas concretas da ampliação dos seus espaços de sobrevivências e possibilidade de continuar a ter acesso à terra. A mudança, por esse ponto de vista significava um novo e penoso recomeço.
O autor explica que a questão religiosa não pode ser negligenciada ao analisar os motivos responsáveis pela permanência dos libertos nas propriedades de seu antigo senhor. O engenho guardava, além da memória da vida sofrida como escravo, a memória da luta por espaços e do culto aos seus deuses.
Durante esse período, os ex- senhores de escravo se empenharam para manter o controle da força de trabalho em sua região. Como não eram mais proprietários de escravos, redefiniu-se as estratégias de manutenção dessa força de trabalho. Faziam-se da imagem de “protetores” dos antigos escravos para prolongar alguns elementos da simbologia do poder e da autoridade senhorial nesse mundo pós- abolição, perpetuando-se assim, o domínio dos seus poderes por mais algum tempo sobre os moradores do engenho.
Porém, para Fraga Filho, a população liberta aprendeu ao longo de três séculos a lidar com a autoridade do poder paternalista do senhor de engenho. Aceitava-se a “proteção” do senhor, em troca de respeito à condição de homem livre, não sendo mais tolerado castigo, trabalho excessivo ou sem remuneração. Para o autor, essa estratégia de se deixar ser um protegido do seu ex-senhor, era de fundamental importância para movimentar-se no mundo dos brancos, se protegendo de abusos de outros poderosos.
No entanto, ao analisar processos-crimes de cidades do recôncavo baiano, o autor percebe que, para se afastar da interferência, e mesmo, do racismo e da submissão, muitos libertos resolveram se afastar dos engenhos, pois, apesar da abolição da escravidão, no imaginário senhorial as práticas escravistas tendiam a se perpetuar.
                   
Sujeição e liberdade em um engenho do Recôncavo     

         Ao fazer um estudo de caso, investigando e analisando o inventário dos bens de Inácio Rodrigues Pereira Dutra, senhor do Engenho da Cruz, na freguesia do Iguape, Walter Fraga Filho, percebeu que o engenho, em sua primeira safra após a abolição produziu menos do que anteriormente, além de não ter conseguido cumprir com obrigações contratuais no fornecimento de cana para a Bahia Central Factories Limited. Atribuindo-se à perda da mão-de-obra escrava o declínio da produção e impedimento do cumprimento das obrigações contratuais.
           Através do cruzamento do inventário com os registros de batismo da freguesia do Iguape, o autor constatou que boa parte dos trabalhadores nascidos na freguesia, era de propriedade do barão de Iguape, e estes, permaneceram na propriedade para dar continuidade aos serviços, após a abolição da escravidão. No entanto, segundo o autor “Rodrigues Dutra teve que remunerá-los por toda atividade realizada no engenho”.
           Ao analisar as relações de trabalho no contexto pós-abolicionismo, percebe-se a luta dos libertos por autonomia nas horas trabalhadas no engenho. Verifica-se que houve uma diminuição das horas de trabalho empregadas no engenho em troca de atividades autônomas nas roças ou em outras propriedades.
           Ao investigar os registros de nascimento, casamento e óbitos da freguesia do Iguape, Fraga Filho descobre que a maioria dos ex-escravos, além de terem nascidos no Engenho da Cruz, eram também, “filhos de ex-escravos que estavam sob domínio da família Dutra desde a metade do século XIX”.
            Descobriu-se que muitos dos ex-escravos do Engenho da Cruz, utilizavam o sobrenome do antigo senhor. O autor nos explica que utilizar o nome Dutra era provavelmente, uma estratégia utilizada pelos libertos, para transitar num mundo onde as relações sociais eram fundamentais para sobrevivência do individuo.
          Através da análise dos livros de registros de nascimento e óbito guardados no Cartório Civil do Iguape, o autor identifica o quanto foi difícil esse período para os libertos. Tempos em que muitos viram os últimos africanos, crianças e jovens serem enterrados.
            Os documentos revelaram ao autor e pesquisador Walter Fraga Filho, vários incidentes envolvendo os libertos durantes esses primeiros anos após o fim da escravidão. Dentre eles, estavam incidentes relacionados aos limites de dependência impostos pelos ex-escravos, como no caso de desavença entre Luís Rodrigues Dutra e Firmino Bulcão.
 Luís Rodrigues Dutra, sabendo da origem escrava de Firmino Bulcão; ex- escravo do Engenho Acutinga, acreditava que Firmino lhe devia obediência ao ser advertido por estar armado na propriedade de sua família. Algo inadmissível para Firmino em sua nova condição de liberto.
Outra forma de conflito encontrada nos documentos foi a relacionada às transformações sociais que estavam na última década do século XIX e no início do século XX.
Analisando os processos-crimes entre os anos de 1889 e 1894, Walter Fraga chegou à conclusão de que a composição da população de trabalhadores do Engenho da Cruz estava sofrendo algumas modificações importantes. Num levantamento feito com 17 trabalhadores do engenho citados em processos-crimes, apenas cinco pertenciam à lista de pagamentos de trabalhadores do engenho, investigados pelo autor no inventário de Inácio Rodrigues Pereira Dutra de 1888.
 Essa movimentação de indivíduos na região intensificou as tensões e os conflitos, como no caso do assassinato de Isabel Bulcão, morta às margens do rio Açu, em terras do Engenho da Cruz, pelo amássio Possidônio Bulcão, ao lavar roupa com outras mulheres. Possidônio teria matado por ter sido trocado por uma tal Fortunato, que segundo o autor não consta na lista dos trabalhadores de 1888.

Memórias do pós-abolição
                    
            No fim deste capitulo do livro, Walter Fraga Filho expõe o emocionante depoimento de Manoel Araújo Ferreira, imigrante natural de Tanquinho de Feira, que chegou no Engenho da Cruz com a família em 1907 em busca de estadia provisória, mas, que se tornou moradia permanente para sua família.
            Walter se demonstra emocionado ao ver “Manoelzinho” falar sobre pessoas que ele apenas conhecia por documentos. Seu depoimento revelou a frustração do casal Luís Rodrigues Dutra e “dona Amélia, com o fim da escravidão. Demonstrando o quanto foi traumático para os senhores de escravo o 13 de maio de 1888.
            O depoimento de Manoelzinho deixou mais claro para o autor como as relações de trabalho ficaram ajustadas a partir do fim da escravidão. Habitando em casas simples, ainda chamadas de senzalas muitos libertos plantavam suas roças. Pagavam-se aos Dutra para beneficiar a mandioca nas casas de farinha. Segundo Manoelzinho, plantavam-se também roças nas terras dos seus antigos senhores em troca de prestação de serviços em dias pré-determinados.
            Concluindo, o autor deixa claro que a permanência de alguns libertos no Engenho da Cruz, significou a possibilidade de terem acesso à terra, garantindo a sobrevivência da família e preservação de valores culturais próprios. Outros porém, possivelmente migraram para outras localidades, estabelecendo-se em outras regiões do Recôncavo baiano em busca de novas perspectivas.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A Política de Valorização do Café nos Tempos da República Velha


A POLÍTICA DE VALORIZAÇÃO DO CAFÉ NOS TEMPOS DA REPÚBLICA VELHA





Wagner Aragão Teles dos Santos[1]



Resumo: Este presente trabalho visa analisar os mecanismos de proteção criados pelo estado brasileiro e o setor financeiro internacional, objetivando regular o preço do café no mercado mundial. Investigando assim, as causas e efeitos dessa política protecionista.


Palavras-Chave: Economia cafeeira, Superprodução, política de valorização, compra de excedentes.





Ao longo de toda sua história, o Brasil se constituiu num país fornecedor de produtos agrícolas para o resto do mundo, tornando assim, o agro negócio sua atividade econômica mais importante.
Durante o período de colonização, o açúcar foi principal produto dessa economia agrícola, tendo papel fundamental durante toda a história do país, até os dias atuais.
 No entanto, a partir da segunda metade do século XIX, o café, desponta como um produto de alto valor comercial para o mercado brasileiro, tornando-se mais tarde, o produto de exportação mais importante da economia do país.  
O mercado mundial do café no final do século XIX era tão favorável aos empresários brasileiros, que segundo Celso Furtado, o Brasil controlava ¾ da oferta mundial do produto.[2]    
Porém, com a crise norte-americana de 1893 e a depressão ocorrida no mercado mundial em 1897, o preço do café, que até então estava elevado por conta da procura do produto, despenca consideravelmente. Enquanto a saca do café em 1893 era vendida por 4,09 libras, em 1899 já havia caído para 1,48 libra.[3]
A partir dessa perspectiva, começa-se a elaborar no Brasil políticas protecionistas para a cultura do café, visando a valorização do preço do produto no mercado mundial.
Em 1906, num convênio celebrado em Taubaté, a solução encontrada pelas autoridades das regiões produtoras de café e seus empresários, para a proteção dos preços do café foi, a retirada de milhões de sacas do produto, com o auxílio de grupos de investimentos internacionais, objetivando o aumento do preço do café através da especulação financeira.
Essa política de valorização negociada em Taubaté, segundo Celso Furtado, consistia basicamente, na intervenção do governo comprando excedentes, visando equilibrar o preço do produto. Estabeleceu-se também que essas compras se fariam com empréstimos estrangeiros, além da criação de um novo imposto sobre o café, seguido de uma política de desencorajamento da expansão das lavouras cafeeiras.[4]
Caio Prado Jr. nos relata em seu livro, História econômica do Brasil, que: “no período de 1906 e 1910 tinham sido retirados do mercado livre cerca de 8.500.000 de sacas”.[5] Demonstrando assim, o quanto foi intensiva a tentativa dos empresários brasileiros de controlar os preços do café no cenário mundial.
No entanto, para Celso Furtado, o alto nível dos preços do café no mercado mundial, possibilitada pela política de valorização, atraía cada vez mais inversões de capitais para o setor cafeeiro, criando assim, um novo problema:


Mantendo-se firmes os preços, era evidente que os lucros se mantinham elevados. E também era óbvio que os negócios do café continuariam atrativos para os capitais que neles se formavam. Em outras palavras, as inversões nesse setor se manteriam em nível elevado, pressionando cada vez mais sobre a oferta.
Dessa forma, a redução artificial da oferta engendrava a expansão dessa mesma oferta e criava um problema maior para o futuro.[6]


Também para Caio Prado Jr. essa política de valorização do café estimulava cada vez mais a produção cafeeira, pois, “entre 1918 e 1924 o número de cafeeiros paulistas passará de 828 milhões para 949. Repete-se novamente a velha história da superprodução”.[7]
A alta dos preços, manipulada artificialmente através da retenção de estoques tornava o setor cafeeiro muito atrativo, impedindo  inversões de capital para outras áreas da economia brasileira, fazendo com que o capital adquirido com os lucros do negócio cafeeiro seja novamente investido nessa cultura agrícola.[8]
No entanto, a partir da segunda metade da década de 20 e principalmente depois de 1929, os estoques de café aumentam cada vez mais, prejudicando a economia cafeeira por não ter aonde escoar a produção, cada vez mais, retida pela política de valorização. Para Caio Prado Jr:


Aparentemente a situação da lavoura era próspera: os altos preços do café prometiam larga margem de lucros. Prometiam apenas, porque efetivamente não se vendia e exportava sendo uma parte da produção. O reto permanecia retido à espera de oportunidade que nunca chegará. O pior é que depois de alguns anos de funcionamento do plano, não havia mais como sair da situação artificial e precária que se criara.[9]


Entre os anos de 1924 e 1929, “só em São Paulo, o número de cafeeiros subirá dos 949 milhões que o vimos em 1924, para 1.155.000.000 em 1930”.
Enquanto os estoques e a produção do café aumentam consideravelmente, a capacidade de absorção desse produto no mercado mundial diminui vertiginosamente por conta da crise financeira de 1929, complicando a situação do setor cafeeiro no Brasil.
Para Celso Furtado, a solução mais adequada para resolver o problema do setor do café, seria pôr em prática uma das medidas negociadas em Taubaté em 1906. Deveria desestimular o aumento do cultivo do café no país.

A solução, aparentemente, estaria em evitar que a capacidade produtiva continuasse crescendo, ou que crescesse mais intensamente como efeito da estabilidade dos preços num nível elevado. As medidas tomadas nesse sentido foram porém, infrutíferas.[10]


Segundo Celso Furtado, outras áreas da economia brasileira deveriam ser atrativas para o capital gerado na indústria cafeeira.:

Teria sido necessário que se oferecessem ao empresário outras oportunidades, igualmente lucrativas, de aplicação dos recursos que estavam afluindo continuamente a suas mãos sob forma de lucros.[11]         


            Ou seja, deveria ter sido estimulada por parte do estado, outros setores da economia brasileira, para que se tornassem mais atrativos para os capitais gerados no setor cafeeiro, para que assim, houvesse inversões de capitais gerados na indústria cafeeira, para outros setores da economia brasileira, possibilitando a diminuição da expansão do cultivo do café no país. Assim sendo, facilitaria o controle dos preços do café no mercado internacional e diminuiria os estoques invendáveis, retidos ao longo de toda essa política de valorização.
          Portanto, o estimulo à diminuição da produção cafeeira nunca aconteceu efetivamente, criou-se na verdade uma “bolha” produtiva, na qual a produção era cada vez mais estimulada pelos altos lucros gerados pelo preço do produto no mercado mundial, possibilitado pela retenção deste, em estoques cada vez maiores, fazendo com que o governo brasileiro a partir da década de 30 tomasse decisões mais drásticas para evitar uma crise maior no setor cafeeiro.
          Na verdade, Caio Prado Jr. nos explica que, durante essa política de valorização do café, o setor que realmente ganhou com isso foi o financeiro:


Enquanto os agentes financeiros da valorização usufruíram assim largamente a operação, os produtores, embora obtivessem durante alguns anos melhores e mais estáveis preços, arcarão depois com todo o ônus dela. São eles que assumem a responsabilidade das grandes dívidas contraídas para executá-la.[12]
                                         


            Diferentemente do que poderíamos supor, os produtores de café não foram os maiores beneficiados pela política de valorização do produto, e sim, o setor financeiro.
            Para Prado Jr. “os momentâneos proveitos da valorização custaram muito caro para os produtores e à economia brasileira em geral.”[13] Demonstrando assim, o quanto foi prejudicial à nossa economia ao longo da primeira metade do século XX.






[1] Wagner Aragão Teles dos Santos é graduado em Licenciatura em História pelo Centro Universitário Jorge Amado.
[2] FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. 34. ed. São Paulo: Companhia das letras, 2007. p. 252.
[3] Ibid. p.253.
[4] Ibid. p.254.
[5] JÚNIOR, Caio Prado. História Econômica do Brasil. 26. ed. São Paulo: Ed. Brasiliense.
[6] FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. 34. ed. São Paulo: Companhia das letras, 2007. p.255.
[7]JÚNIOR, Caio Prado. História Econômica do Brasil. 26. ed. São Paulo: Ed. Brasiliense.
[8] FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. 34. ed. São Paulo: Companhia das letras, 2007. p.256.
[9] JÚNIOR, Caio Prado. História Econômica do Brasil. 26. ed. São Paulo: Ed. Brasiliense.

[10] FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. 34. ed. São Paulo: Companhia das letras, 2007. p.255.
[11] Ibid. 256.
[12] JÚNIOR, Caio Prado. História Econômica do Brasil. 26. ed. São Paulo: Ed. Brasiliense.
[13] Ibid.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Petroquímicos e a Greve Geral de 1985

SAMPAIO, Iamara Andrade. Petroquímicos e a Greve Geral de 1985.

                        


George Moura Tavares
Wagner Aragão Teles


Na sua dissertação de mestrado, intitulado Petroquímicos e a Greve geral de 1985, Iamara Andrade Sampaio se propõe a discutir a greve de 1985, e todo o seu trabalho pode ser dividido em três grandes partes: a primeira se propõe discutir a importância e a consolidação do setor petroquímico no mundo, no Brasil e na Bahia; a segunda, Iamara tende a descrever o ambiente de trabalho e as condições nas quais os operários eram submetidos; e a terceira, a autora se reserva à descrição da greve, seus meandros e desfechos.
A greve faz parte de um tema que é parte indissociável dos debates entre marxistas, sociólogos, historiadores e claro, entre os indivíduos e sujeitos diretamente ligados a greve e as condições e contradições que o capitalismo e o ambiente do trabalho proporcionam.
Muitos estudiosos se debruçam a respeito da relação histórica entre os homens. É a luta de classes em muito dos casos o objeto de estudos destes, sendo a descoberta e estudo de casos que confirmam, acrescentam, ou desmistificam antigas teorias. A greve nesse sentido, é um instrumento utilizado pela  classe operária, com o objetivo de obter ganhos salariais e melhores condições no ambiente de trabalho. Contudo, a greve e a relação entre patrão e operário só seria manipulado e fiscalizado pelos órgãos do Estado com a criação da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas). Antes disto era muito recorrente a justiça defender de maneira desmedida a classe patronal.
Entretanto, alguns trabalhadores que participaram da greve de 1985, sofreram uma perseguição que só veio a terminar cerca de 20 anos depois. Pois, cerca de 200 operários que haviam sido demitidos, passaram a preencher uma espécie de “lista suja”, no qual nenhuma empresa do pólo iria contratá-los devido a esta participação na greve. A anistia só veio a ser dada pela justiça depois de pelo menos 10 anos de julgamento[1].
Contudo, como nos conta Iamara Santana a experiência vivida pelos trabalhadores nesta greve de 1985, iria proporcionar a construção de uma identidade e um sentimento de pertencimento a todos aqueles que se solidarizaram e  tentaram melhorar as condições de vida fora e dentro do ambiente de trabalho.
Iamara Sampaio em seu trabalho inicia o debate fazendo uma releitura de algumas pesquisas que se propuseram a discutir a greve de 1985, como os trabalhos de Guimarães, Eduardo Noronha, Nadya Castro, João Lopes e Solange Bastos.
Nestes trabalhos, a leitura que se faz dos acontecimentos deixa bem claro que o fracasso das negociações se deu pela deterioração das relações entre patrões e operários e que este fracasso fora percebido pelos operários como uma humilhação. Porém, a greve na leitura destes pesquisadores  significou uma demonstração de força e atividade na busca pela melhoria na condição de vida dos operários.
Para estes, o que levou os operários a iniciarem a greve foi a postura dos patrões em negar benefícios sociais. E esta reivindicação por melhoria passava por uma tomada de consciência da importância econômica deste pólo petroquímico para o Brasil e para o mercado mundial.
 Assim, esta importância teria que ser traduzido na valorização dos seus operários. Daqueles que colaboraram para a economia do seu país e do mundo.
Outra abordagem, que se segue é a de que esta greve seria estimulada pelo desgaste do regime político do país, onde a luta pelo fim do autoritarismo faria os trabalhadores do pólo lutar no seu âmbito de trabalho pelo mesmo ideal. E o peleguismo praticado por alguns colegas, levariam muitos à mobilização entre os trabalhadores de turno e do setor administrativo. Assim, toda essa euforia nacional na luta pelo fim de um regime antidemocrático, inclusive o movimento das “Diretas já”, proporcionaria um clima de enfrentamento e reivindicação. Reivindicação esta que não fazia parte apenas dos meios proletários, pois, no ano de 1981 deu-se inicio a um quebra-quebra de ônibus em Salvador que refletiria o sentimento político de algumas camadas da cidade. Toda esta atmosfera iria contagiar os operários, pois, por obterem famílias e filhos e pensando no seu bem estar e de todos, não mais tolerariam qualquer postura por parte de seus superiores, que viesse a prejudicá-los.
Dando continuidade ao seu trabalho, a autora passa em revista um breve histórico acerca do pólo petroquímico no mundo, no Brasil e na Bahia. Sendo que a indústria petroquímica surgiria nos EUA na década de 20-40, com o objetivo de solucionar um problema de escassez de matéria-prima. Esta indústria teria por objetivo dar suporte às outras produções industriais.
E este surgimento nos EUA foi possível devido a concentração de capitais, logo após a primeira guerra mundial. Contudo, na década de 1950 o Japão e a Europa também começam a manipular o setor petroquímico. Sendo que os japoneses iriam inovar na forma de gestão dos pólos petroquímicos, com a prática que ficara conhecida como “joint-venture”, que seria uma maneira de dividir gastos e lucros com as empresas associadas, obtendo também, tecnologias e matérias-primas.
No entanto, após a crise de 1973 os países desenvolvidos, e que trabalhavam com o setor petroquímico, passa a delegar aos países em desenvolvimento este setor petroquímico. Uma tendência que fazia parte da assim chamada Divisão Internacional do Trabalho, onde os países desenvolveriam tecnologias, forneceriam capitais e aqueles seriam responsáveis pela produção petroquímica.
 É dentro deste contexto que o Brasil passa a manter contato com a indústria petroquímica, pois, durante muito tempo o Brasil permaneceria subserviente exclusivamente ao capital estrangeiro e à necessidade técnica para operar os pólos petroquímicos. 
Esta tendência iria mudar a partir do governo de JK, que com o seu modelo desenvolvimentista iria olhar de maneira estratégica para o setor petroquímico.
Durante o Regime Militar iria se consolidar a participação do Estado neste setor, com a criação, por exemplo, da Petroquisa. Já que estaria havendo uma fuga de capitais privados e esta economia não poderia regredir e por em risco o progresso brasileiro.
A petroquímica da Bahia fazia parte de uma mudança de postura econômica e de produção das regiões brasileiras. O pólo petroquímico teria sido o resultado de uma busca iniciada com a importância política de Juraci Magalhães com o governo federal de Janio Quadros que conquistou e trouxe recursos para a Bahia, e que com Lomanto Jr., viria a construir o Centro Industrial de Aratu.
Deste modo, toda uma estrutura estaria sendo montada, para que os esforços em trazer o pólo petroquímico se efetivassem. Como de fato se consolidou e fora construído a partir de recursos deslocados da SUDENE, que também financiou a industrialização do Nordeste.
Dando continuidade ao trabalho, Iamara Sampaio se preocupa em descrever o ambiente de trabalho, o que os operários manipulavam para poder mover a indústria petroquímica, assim enfatizando os riscos que todos se submetiam, como por exemplo, o gás natural, nafta, gasóleo e dentre outros. Além de se submeterem aos equipamentos como “esferas”, “fornos”, “tanques”, “reatores”, dentre outros.
 Outra informação muito curiosa é a respeito do nível educacional dos trabalhadores, onde boa parte destes tinham apenas o nível básico de educação. Assim como o número de mulheres, que era inexpressivo.
Estas duas últimas informações passam a ser muito interessantes, a primeira ocasiona-se por uma postura das empresas multinacionais, que tendem a se instalar longe de seus países de origens com o objetivo de conquistar mão-de-obra barata e diminuir os custos com a produção. A segunda nos diz muito da cultura machista e patriarcal, onde o número inexpressivo de mulheres seria o resultado de uma mentalidade que situavam estas apenas como competentes ao mundo doméstico.
Outra informação, não menos importante, é a de que haveria uma distinção de cor para a ocupação de certas funções. Os negros deveriam assumir funções manuais, e os brancos seriam selecionados a cargos administrativos.
 A autora também, investiga o cotidiano fabril, identificando os tipos de trabalhos exercidos pelos funcionários que mais adiante participariam da greve. 
As diferentes atividades exercidas na fábrica seriam fundamentais para a formação de identidades desses indivíduos.
As dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores foram explicitadas nos depoimentos dos operários.
O cansaço, a perda da vida social proporcionada pelo trabalho de turno, a “dobra”, acima de tudo, são suportados, por receberem salários melhores dos que eram pagos, normalmente, pelo mercado de trabalho baiano naquele momento.
No entanto, a autora esclarece que, com a atividade fabril “os trabalhadores se tornam complementos vivos de um mecanismo morto que existe independente deles”. Assim sendo, os trabalhadores, no rítimo do trabalho de turno, se tornam escravos do sistema produtivo da indústria petroquímica, tendo suas vidas sociais extremamente limitadas a poucas atividades de fim de semana.
Dentro dessa estrutura perversa, a autora aborda também, os problemas de saúde enfrentados por esses trabalhadores que estão submetidos à “disciplina da caserna”, expostos à inúmeros casos de doenças do sistema respiratório, circulatório, nervoso, dentre outros. Causados por produtos extremamente perigosos à saúde humana.
Para Iamara Sampaio, o constante perigo vivido pelos operários fez com que se formassem laços de solidariedade entre eles, pois à todo momento uma companheiro poderia depender do outro.
No terceiro capítulo, a autora investiga os motivos para o início da greve, a partir do surgimento dos primeiros núcleos de organização coletiva entre os trabalhadores do pólo petroquímico de Camaçari, entre eles a ASPETRO (Associação dos petroquímicos). Evidenciando a influencia de idéias do “novo sindicalismo”, vindas do sudeste do país, possibilitada em grande medida, pela grande exposição ocorrida nas greves do ABC paulista entre os anos de 1978 e 1980.
Em meio a toda essa ebulição sindical, o país sofre com a retração do capital internacional, ocasionada pela crise do petróleo e consequentemente, o declínio de sua economia, aumentando a inflação e elevando a dívida externa.
Para Iamara Sampaio, mudanças na cultura política do país, como também, a instabilidade econômica, foram responsáveis pelo aumento da participação política da sociedade civil, proporcionando o surgimento de novas organizações populares e de aumento de confronto com o poder público.
O sindicato nesse momento surge na vida do trabalhador petroquímico de Camaçari, como um espaço de socialização, onde as insatisfações do seu cotidiano fabril são transformadas em reivindicações coletivas. Fazendo desse espaço, um espaço de fortalecimento dos laços sociais dos trabalhadores petroquímicos, no qual nasce a consciência de que juntos eles são fortes o suficiente para enfrentar o patronato das empresas petroquímicas.
Partindo de uma análise marxista, a autora compreende que as estruturas produtivas em que estavam inseridos os trabalhadores do pólo petroquímico de Camaçari, foram responsáveis pela eclosão da greve em 1985. Possibilitando naquele momento, que os indivíduos se organizassem para lutar, não apenas por melhores salários, mas, por melhores condições de trabalho e de reconhecimento por parte da chefia, de seus serviços prestados nas fábricas.
Assim sendo, segundo Iamara Sampaio, as causas propulsoras da greve não perpassam, por uma análise individualista, em que a emancipação econômica se torna a motivação principal nas reivindicações dos trabalhadores. A insatisfação salarial é apenas um dos motivos dentre os vários envolvidos nas relações de trabalho do setor fabril, responsáveis por conflitos resultantes das estruturas produtivas em que estão inseridos os trabalhadores.
Ao analisar os depoimentos dos trabalhadores envolvidos na greve de 1985, a autora observou que as assembléias ocorridas antes da deflagração da greve, se tornaram em momentos de transformar as suas angústias em questões políticas que servissem de reivindicações diante do patronato.
Conscientes da classe da qual fazem parte, os trabalhadores entram em greve em 27 de agosto de 1985 e promovem dentro das fábricas o que eles chamam de “inchamento”.
Nesse momento, os trabalhadores rompem com a lógica produtiva do capitalismo, controlando os meios de produção da fábrica, violando assim, a “disciplina da caserna.”.
Todo o controle alienante do sistema produtivo capitalista é subvertido pelos trabalhadores quando a produção industrial é cessada, a partir da enorme destreza técnica dos operadores, mesmo estando as máquinas em pleno funcionamento.
Dentro de uma atmosfera tensa e angustiante, também é analisado os conflitos existentes entre os grevistas, a chefia e o pessoal do setor administrativo durante o período de “inchamento”, deixando evidente o posicionamento político de cada grupo envolvido no ocorrido.
Mesmo tendo a imprensa desqualificando o movimento grevista, a justiça criminalizando-os e os obrigando a abandonar as fábricas, por estarem violando o direito de propriedade do patronato petroquímico, os trabalhadores agora, se mantém unidos na granja “Novo Mundo”, espaço de propriedade do sindicato.
Para a autora esse espaço foi fundamental para fortalecer os laços de solidariedade entre os grevistas, além de servir para evitar a dispersão após a saída da fábrica, pois, a contra-ofensiva patronal em convocar funcionários que não aderiram à greve; ex-funcionários; empreiteiras e operários sulistas para dar a partida nas fábricas, poderiam nesse momento, fazer com que os trabalhadores se sentissem coagidos ou aliciados à voltar ao serviço.
O aliciamento houve através das esposas dos funcionários envolvidos na greve, as quais, eram incentivadas a convencer seus maridos à voltar ao trabalho com a promessa de melhorias hierárquicas dentro da empresa.
Ao se tratar dos trabalhadores que cederam às pressões e voltaram ao serviço antes do fim da greve, a autora, diante dos depoimentos dos operários, identificou que estes, foram excluídos dos laços sociais existentes dentro do ambiente fabril. Foram responsabilizados pelas demissões de 230 funcionários envolvidos no movimento grevista.
Para a autora, além da aniquilação política, esses indivíduos foram impedidos de voltar a atuar no setor petroquímico por toda a vida, sendo rejeitados em várias fábricas do setor petroquímico espalhadas pelo Brasil.
Porém, mesmo com as baixas desses operários, Iamara Sampaio, acredita que a greve de 1985 no pólo petroquímico de Camaçari, por si só, já foi vitoriosa, por ter se transformado num movimento de classe que confrontou o poder econômico e político, numa ação autônoma e independente dos trabalhadores.
Ao analisar o cotidiano fabril dos trabalhadores do pólo petroquímico de Camaçari e identificar as forças propulsoras responsáveis pela greve, este trabalho de Iamara Sampaio, demonstra o quanto a análise marxista, sob a ótica do materialismo histórico, ainda consegue dar respostas contundentes à historiografia contemporânea.


[1] Texto de Samuel Celestino cujo título, Petroquímicos da greve de 1985 são anistiados, está disponível em: http://bahianoticias.com.br/principal/samuel-celestino/2559-petroquimicos-da-greve-de-1985-sao-anistiados.html.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Crise de Abastecimento e Carestia em Salvador na Década de 1850


CRISE DE ABASTECIMENTO E CARESTIA EM SALVADOR NA DÉCADA DE 1850





Wagner Aragão Teles dos Santos[1]



Resumo: Este presente trabalho aborda a situação da cidade de Salvador referente à crise de abastecimento e a carestia de gêneros de primeira necessidade, ocasionados pela seca e a cólera-morbo que afligiu a cidade nos primeiros anos da segunda metade do século XIX.


Palavras-Chave: Carestia, crise de abastecimento, farinha de mandioca, carne verde.



Durante o século XIX, a Bahia vivenciou vários momentos de dificuldade econômica proporcionada pela seca, chuvas e doenças, que variavelmente prejudicavam a produção de gêneros de subsistência, possibilitando um aumento significativo nos preços desses artigos, tornando a vida cotidiana quase insuportável para as classes menos favorecidas. Gerando assim, crises de abastecimentos e alta nos preços, que levava o povo algumas vezes à pequenas revoltas por acesso a esses artigos de primeira necessidade.
Dentre os aspectos mais importantes para a crise de abastecimento e alta nos preços de gêneros alimentícios de primeira necessidade na Bahia na segunda metade do século XIX, o clima foi talvez, o de maior relevância.
Segundo Antônio Risério, as chuvas trouxeram grandes prejuízos para a Bahia na segunda metade do século XIX:

Os anos de 1851-1852 foram de chuvas excessivas, superabundante, resultando na destruição de safras de matérias-primas exportáveis e de produtos alimentares essenciais para a dieta da população, como a farinha de mandioca[2].


Antônio Risério conta também que, “entre 1857-1960, a Bahia sofreu uma das secas mais longas de toda sua história, comprometendo terrivelmente a produção de alimentos.”[3] Principalmente, a mandioca, artigo consumido em larga escala pelos escravos e pela população mais carente de Salvador.
A farinha de mandioca, o feijão e a carne verde, alimentos mais consumidos no Brasil imperial, foi tão gravemente atingidos pela alta nos preços nesse período que, segundo João José Reis e Márcia Gabriela, em 1854, um pedreiro gastava 47,3% de seu salário na compra desses itens. Já em 1858, em pleno período de seca, o valor comprometido seria de 58,5% de seu salário.[4]
Esses relatos demonstram o quanto as condições climáticas foram desfavoráveis para a produção de alimentos na Bahia nesse período. No entanto, não só o clima foi responsável por prejudicar a economia baiana oitocentista.
Na segunda metade do século XIX, a Bahia sofreu com a febre amarela e a cólera-morbo. Em 1855 e 1856, Salvador foi visitada pela cólera-morbo, que chegou ao porto da cidade no navio Imperatriz, vindo do Pará. Fazendo da Bahia a segunda província a ser atacada pela doença[5], prejudicando sensivelmente o sistema de abastecimento da cidade matando milhares de pessoas, como nos conta Antônio Risério:

De acordo com dados coletados por Onildo Reis David (O inimigo Invisível- Epidemia na Bahia no Século XIX), a peste deixou quase dez mil mortos em Salvador, 8.500 em Santo Amaro, 8.200 em Cachoeira, 3.215 em Nazaré das Farinhas, etc. Se esses números seriam certamente altíssimos mesmo hoje em dia, imagine-se naquela época, quando Salvador não ultrapassava a casa dos cem mil habitantes. [6]


A partir desses números, é impensável acreditar que com a morte de quase 30.0000 habitantes; apenas nas cidades citadas, não tenha havido prejuízo para o sistema produtivo e de abastecimento de Salvador e Recôncavo baiano.
Evidentemente que com esse número de mortos, a região, indubitavelmente, necessitaria de menos alimentos para suprir o mercado interno. No entanto, ao mesmo tempo, haveria menos mão de obra para trabalhar nas lavouras, prejudicando consequentemente a produção.
Podemos supor também que, muito provavelmente, o maior número dos atingido pela mortandade da cólera de 1856, fazia parte das classes subalterna, por viver em condições de vida pouco favorável à saúde humana. Sendo eles, diretamente responsáveis pelo sistema produtivo e de abastecimento da região, pois, trabalhavam nas lavouras e nos transportes dessas mercadorias.
Vale ressaltar que, mesmo que a epidemia de 1856 não tenha prejudicado a produção interna; o que é improvável, certamente foi responsável por crises de abastecimento no período.
 Epidemias como essa, prejudicavam o abastecimento de cidades portuárias como Salvador, que importava com regularidade a farinha de mandioca de algumas regiões distantes como: Espírito Santo, Rio de Janeiro e Santa Catarina[7]. A carne de charque vinda da região do Prata, fundamental na alimentação da maioria da população da cidade, era outro produto também prejudicado nos períodos epidêmicos.[8]
Em relação a produção interna desses alimentos, Cleide de Lima Chaves explica também que, “apesar da farinha de mandioca ser produzida na província da Bahia, sua produção era insuficiente para atender o mercado local”[9], necessitando importar de outras províncias.
Além disso, com a chegada da cólera em Salvador, seus portos foram prejudicados, pois, os médicos-sanitaristas recomendavam que se fizessem uso da quarentena em navios que chegavam na cidade, reduzindo assim, a chegada e saída destes, prejudicando o fornecimento de produtos, principalmente, carne e farinha.[10]
Nesse período epidêmico, os médicos baianos começaram também, recomendar que não comessem a carne de charque, pois era segundo eles, gordurosas e rançosas. Prejudicando assim, a carne importada do Prata, dando preferência à carne verde abastecida pelo mercado interno.[11]
No entanto, no ano 1857, a cidade de Salvador sofreu com uma alta significativa no preço da carne verde. Consequência, muito provavelmente, da grande estiagem que ocorreu nesse ano e as consequências da epidemia de cólera do ano anterior.[12]
O gráfico abaixo nos mostra o quanto foi essa variação nos preços da carne verde nos anos de 1856 e 1857:


Tabela: preço médio da carne verde em meados da década de 1950.[13]
Ano
Arroba da carne verde
(em réis)
Preço da carne ao consumidor, em réis por libra (453gr.)
1856
4$480
$135
1857
4$950
$150



Esses números nos mostra que entre 1856, ano da epidemia de cólera e 1857, período da grande seca que assolou a Bahia até 1860, a carne verde aumentou de preço significativamente. O aumento foi de 10,5%, tanto para a arroba vendida aos açougues, quanto para a libra vendida ao consumidor final.[14]
É difícil não relacionar esse aumento à seca e a epidemia de cólera ocorrida nessa época, pois, nem na década anterior, nem na década seguinte houve aumentos de tal importância no preço da carne verde em Salvador. Entre os anos de 1845 e 1847 o preço da carne verde aumentou cerca de 5,2% ao consumidor final, praticamente a metade da inflação ocorrida entre os anos de 1856 e 1857. [15]
Se pegarmos a diferença de preço de 1847 à 1857, evidenciamos um aumento na inflação de 47% no preço da carne verde nesses dez anos, ou seja, média inflacionária de 4,7% ao ano.
 Em meados da década de 1860 a inflação foi ainda significativamente menor. Entre os anos de 1865 à 1869 houve uma deflação de 38,3%[16], demonstrando o quanto os números da inflação entre os anos de 1856-1857 foram acima da média, sinalizando que alguma coisa prejudicou o sistema produtivo de carne verde do período, ou no entanto, a preferência pela carne verde em detrimento da carne de charque, aconselhada pelos médicos, tenha aumentado significativamente o consumo desse artigo ao ponto da produção interna não conseguir dar conta da demanda.
Como vimos, a carestia de preço não foi uma exclusividade da carne verde. Concomitantemente com a diminuição do consumo de carne de charque proporcionada pelas recomendações médicas em combate à cólera-morbo e a seca de 1857, a farinha de mandioca, outro item largamente consumido no Brasil imperial, sofreu nesse período com aumentos em seus preços.
Essas crises de abastecimentos e consequentemente, o aumento nos preços nos produtos, ajudaram a eclodir em 1858, uma revolta que mobilizou parte da população de Salvador por melhores preços nos artigos de subsistência, principalmente, a carne verde e a farinha de mandioca.
 Essa revolta ficou conhecida como o motim da ”carne sem osso, farinha sem caroço”[17], por causa da reivindicação da população por melhor qualidade e menores preços na carne e na farinha de mandioca que estavam disponíveis no comércio.









REFERÊNCIAS:

RISÉRIO, Antônio. Uma História da cidade da Bahia. Rio de janeiro. Versal Editores. 2004.

REIS, João José; AGUIAR , Márcia Gabriela de. Carne sem osso e farinha sem caroço: O Motim de 1858 contra a carestia na Bahia. Salvador. Revista de História. 1996.

CHAVES, Cleide de Lima. “Fluxo e refluxo” do cólera na Bahia e no Prata. Salvador. 2000.

CHAVES, Cleide de Lima. A economia baiana e platina no século XIX: a integração regional. Salvador.

LOPES, Rodrigo Freitas. Nos currais do matadouro público: o abastecimento de carne verde em Salvador no Século XIX ( 1830-1873). 153f. 2009. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal da Bahia, Salvador.


[1] Wagner Aragão Teles dos Santos é graduado em Licenciatura em História pelo Centro Universitário Jorge Amado.
[2] RISÉRIO, Antônio. Uma História da cidade da Bahia. Rio de janeiro. Versal Editores. 2004. P. 304.
[3] Ibid. p.304.
[4] REIS, João José; AGUIAR , Márcia Gabriela de. Carne sem osso e farinha sem caroço: O Motim de 1858 contra a carestia na Bahia. Salvador. Revista de História. 1996. p. 151.
[5] CHAVES, Cleide de Lima. “Fluxo e refluxo” do cólera na Bahia e no Prata. Salvador. 2000. p.02.
[6] RISÉRIO, Antônio. Uma História da cidade da Bahia. P. 304.
[7] REIS, João José; AGUIAR , Márcia Gabriela de. Carne sem osso e farinha sem caroço: O Motim de 1858 contra a carestia na Bahia. Salvador. Revista de História. 1996. p. 152.
[8] CHAVES, Cleide de Lima. “Fluxo e refluxo” do cólera na Bahia e no Prata. Salvador. 2000. f.04.
[9] CHAVES, Cleide de Lima. A economia baiana e platina no século XIX: a integração regional. Salvador. f.04.
[10]CHAVES, Cleide de Lima. “Fluxo e refluxo” do cólera na Bahia e no Prata. Salvador. 2000. f..05.
[11] CHAVES, Cleide de Lima. “Fluxo e refluxo” do cólera na Bahia e no Prata. Salvador. 2000. f..05.
[12] LOPES, Rodrigo Freitas. Nos currais do matadouro público: o abastecimento de carne verde em Salvador no Século XIX ( 1830-1873). 153f. 2009. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal da Bahia, Salvador.
[13] LOPES, Rodrigo Freitas. Nos currais do matadouro público: o abastecimento de carne verde em Salvador no Século XIX ( 1830-1873). 153f. 2009. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal da Bahia, Salvador. f.78.
[14] Ibid. f.78.
[15] Ibid.
[16] LOPES, Rodrigo Freitas. Nos currais do matadouro público: o abastecimento de carne verde em Salvador no Século XIX ( 1830-1873). 153f. 2009. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal da Bahia, Salvador. f.79.
[17] REIS, João José; AGUIAR , Márcia Gabriela de. Carne sem osso e farinha sem caroço: O Motim de 1858 contra a carestia na Bahia. Salvador. Revista de História. 1996.