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domingo, 18 de setembro de 2011

A Historiografia Brasileira e o Trabalho Escravo Africano na América Portuguesa no Século XVI

A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA E O TRABALHO ESCRAVO AFRICANO NA AMÉRICA PORTUGUESA NO SÉCULO XVI



Wagner Aragão Teles dos Santos



Resumo: Este presente trabalho aborda algumas das principais justificativas propostas pelos historiadores brasileiros ao longo das últimas décadas, em relação a “opção” do trabalho escravo africano no Brasil colonial. Explicitando diversas teorias que possibilitaram entender os motivos e os interesses dos que estavam envolvidos na colonização da América portuguesa, em relação à mão-de-obra vinda do continente africano.


Palavras-Chave: Africanos, Colonização, Escravidão, e Força de Trabalho.


       Há muitas décadas, os historiadores brasileiros vêm discutindo sobre os motivos que fizeram da mão-de-obra escrava vinda do continente africano, a força de trabalho predominante no Brasil até o século XIX.
       Várias teorias foram propostas ao longo desse período, fazendo com que se acreditasse que “esse ou aquele” motivo foi o responsável pela opção do trabalho africano em terras americanas.
       Dentre várias teorias, uma delas defende que um dos motivos da escolha dos portugueses pela mão-de-obra escrava africana, teria sido o fato de os europeus conhecerem esse tipo de escravidão desde os últimos séculos da Idade Média.
       Ciro Flamarion Cardoso, em seu livro, A Afro-América: A escravidão no Novo Mundo, explica, que um dos defensores dessa teoria é C. Verlinden, especialista em escravidão medieval. Segundo ele, técnicas de colonização se difundiram em colônias do Mediterrâneo Oriental e do Levante pouco depois da primeira Cruzada. Que os Venezianos desde o Século XII, criaram na Palestina, verdadeira plantations açucareiras, aprendendo do açúcar com os muçulmanos.
       Portanto, a fins da Idade Média, a colonização italiana em associação com as coroas ibéricas utilizaram a escravidão em suas plantations.
       Russel R. Menard e Stuart Schwartz lembram que,
"Por volta de 1450 ocasionais viagens portuguesas de exploração e comércio com a África já retornavam com escravos, e, ao redor de 1480, já havia sido estabelecido um comércio permanente de escravos em vários pontos da costa ocidental africana."

       Baseado nessa teoria, Ciro Flamarion explica que, a Península Ibérica já conhecia desde a Idade Média a escravidão de Eslavos e Mouros. Ele diz que, “a meados do século XVI (1551), aproximadamente 10% da população de Lisboa eram escravos Mouros e negros.” Isso demonstra o quanto Portugal praticava a escravidão nesse período.
       Corroborando com essa linha de pensamento, S. Schwartz lembra também que, “uma longa experiência com a escravidão negra na Península Ibérica, intensificada durante a expansão da indústria açucareira no Atlântico, familiarizara os portugueses com os africanos e suas aptidões.”
       No entanto, essa teoria serve apenas para explicar, em parte, a opção dos portugueses pela a mão-de-obra escrava em geral, mas não explica, por si só, a opção pelos africanos nesse trabalho, pois, se essa teoria se justificasse, os portugueses não teriam durante todo século XVI, utilizado a mão-de-obra indígena como força de trabalho predominante em sua colônia americana.
       Darcy Ribeiro conta que a escravidão indígena predominou ao longo de todo o primeiro século de colonização, que apenas no século XVII a escravidão africana se tornaria predominante. Demonstrando assim, que os portugueses pensavam, em utilizar a força de trabalho que fosse mais acessível naquele determinado momento.
       Mas, por que os portugueses priorizaram mais tarde o trabalho escravo africano? Sendo que como o próprio Darcy Ribeiro ressalta que, “nenhum colono pôs jamais em dúvida a utilidade da mão-de-obra indígena, embora preferissem a escravatura negra para a produção mercantil de exportação.”
       Além disso, segundo Darcy Ribeiro, o escravo indígena era muito mais barato do que o africano, durante o século XVI, “custando uma quinta parte do preço de um negro importado, o índio cativo se converteu no escravo dos pobres, numa sociedade em que os europeus deixaram de fazer qualquer trabalho manual.”
       Uma das grandes teorias debatidas ao longo do século XX sobre a opção da mão-de-obra africana em detrimento da indígena é a que defende que a escassez de força de trabalho tanto livre, quanto escrava na colônia foi a responsável por essa decisão pelos portugueses.
       A escassez de mão-de-obra em Portugal e a necessidade de pagar salários altos para prováveis imigrantes portugueses, também corroboraram para utilização dos indígenas no primeiro momento, pois, tornar-se-ia impossível a implementação de uma “indústria” açucareira com uma força de trabalho portuguesa tanto escassa, como provavelmente cara. Celso furtado explica sobre a escassez de trabalhadores:

"Transportá-la na quantidade necessária da Europa teria requerido uma inversão demasiadamente grande, que provavelmente tornaria antieconômica toda a empresa. As condições de trabalho eram tais que somente pagando salários bem mais elevados que os da Europa seria possível atrair mão-de-obra dessa região."

       Celso Furtado ressalta também, que no inicio do século XVI, com o comércio com as Índias Orientais em alta, era propicio que esse comércio dificultasse a ida de trabalhadores europeus para o novo continente. Por conta disso, a escravidão seria a opção mais lógica para a falta de mão-de-obra. Assim como Celso Furtado, Caio Prado Júnior esclarece:

"Não somente Portugal não contava com população bastante para abastecer sua colônia de mão-de-obra suficiente, como também, já o vimos, o português, como qualquer outro colono europeu, não emigra para os trópicos, em princípio, para se engajar como simples trabalhador assalariado do campo."

       A teoria da escassez de mão-de-obra, explica, junto com a teoria sobre experiência portuguesa com a escravidão desde a Idade Média, de forma plausível, a escolha da escravidão nas novas investidas econômicas do Novo Mundo. No entanto, não conseguem explicar o porquê da escolha da força de trabalho africana predominante a partir do século XVII, pois, o trabalho indígena foi utilizado largamente durante o século XVI.
       A partir disso, temos que entender como ocorreu essa migração, como também o porquê dela.     Portanto, somos levados a ressaltar as teorias que discutem as dificuldades que tiveram os colonos na manutenção da escravidão indígena durante os séculos de colonização.
       Por conta disso, vale lembrar novamente, que, nos primeiros momentos da colonização, os índios foram usados como força de trabalho principal, sendo utilizado para a obtenção inicialmente de pau-brasil e pouco depois, nos engenhos de cana-de-açúcar. Porém, as várias doenças trazidas pelos portugueses, vindas do continente europeu, que assolava a Europa por muitos séculos e que não eram mais tão mortais para os emigrantes do velho continente, se tornaram fatais para o sistema imunológico das populações indígenas estabelecidas no Novo Mundo, fazendo do escravo indígena um investimento arriscado.
       S. Schwartz nos conta que, “a suscetibilidade dos índios de todas as idades às doenças européias aumentava o risco do investimento de tempo e capital para treiná-los em trabalhos artesanais ou de fiscalização”.
       Luiz Felipe Alencastro lembra, ao se tratar dos índios que eram levados à Portugal como escravo, que, “Na virada do Quinhentos, Brandão repara que os índios do Brasil desembarcados em Portugal “morrem apressados”, porque vinham de “terra tão sadia”, enquanto os asiáticos ou os africanos, oriundos de ‘terra doentia’, já sobreviviam.”
       Luiz Felipe Alencastro explica também que, a vinda de africanos para o Brasil, desde o início do tráfico de escravo africano, potencializou a incidências de doenças nos indígenas que aqui estavam, pois, segundo ele:

"A febre amarela, a malária e a verminose causadora da ancilostomíase, doenças originárias da África Ocidental, para as quais os africanos daquelas áreas e seus descendentes desenvolviam reação imunitária, contagiam os enclaves na América portuguesa, gerando ao longo dos séculos XVI e XVII um novo ambiente epidemiológico aos brancos e aos índios. Desde logo, o tráfico negreiro aumenta a morbidade e a mortalidade dos índios livres e cativos, levando os moradores a ampliar a demanda de africanos."

       Ciro Flamarion Cardoso entende também, que a mortalidade indígena foi um dos fatores que possibilitaram a mudança de mão-de-obra escrava no Brasil colonial. Para ele:

"(...) a terrível mortalidade dos índios nas fazendas, a baixa produtividade do seu trabalho – fatores apontados por Rocha Pita –, levaram a que se passasse a preferir a importação de africanos, mesmo se inexistiu unanimidade a respeito: durante muito tempo houve defensores do trabalho indígena, escravo ou não."

       As epidemias que assolaram as populações indígenas na colônia no século XVI, apesar de importante para o comprometimento da economia colonial, não explicam completamente a adoção da mão-de-obra escrava africana nos engenhos do além-mar. Pois, segundo Darcy Ribeiro, “os primeiros contingentes de negros já tinham sido introduzidos no Brasil nos últimos anos da primeira metade do século XVI, talvez em1538”. Mas, apenas a partir de 1560, essas epidemias começaram a diminuir significativamente a oferta de escravo indígena, como relatam Russel R. Menard e S. Schwartz:

"Após 1560, no entanto, tornou-se mais difícil – e, por isso, mais cara – a aquisição de trabalhadores indígenas. Uma série de epidemias, que varreram a costa entre 1559 a 1563, dizimaram a população indígena que vivia nas plantations e nas aldeias jesuítas."

Então, porque os colonos portugueses, mesmo antes de 1560, já importavam escravos africanos, sendo que, existia em certa medida, até esse período, oferta de mão-de-obra indígena?
       Uma resposta inicial para essa pergunta seria possível explorando a teoria que defende que essa decisão foi tomada por conta da melhor adaptação dos escravos africanos em atividades especificas. Para muitos colonos, os negros eram mais capacitados para trabalhos especializados do que os índios. Fazendo com que, a partir dessa percepção, os colonos começassem a importar com maior freqüência os africanos para serem utilizados principalmente nos engenhos de cana-de-açúcar.
       Quem defende de forma lúcida esse ponto de vista é S. Schwartz. Referindo-se à observação portuguesa em relação à habilidade dos africanos, ele explica que:
 
"Em fins do século XVI, sua habilidade em dominar as técnicas do fabrico do açúcar na Madeira e em São Tomé já havia impressionado os portugueses. No Brasil, os colonos, há tempos habituados ao emprego, em Portugal e nas Ilhas atlânticas, de negros em serviços domésticos, como artesãos urbanos e escravos especializados, começaram a pensar na África como uma fonte lógica de homens com tais aptidões."

       Para validar essa teoria sobre a preferência dos portugueses pelos escravos africanos, em detrimento dos escravos indígenas, em relação à especialização destes, S. Schwartz nos conta que:

"Em 1548, o Engenho São Jorge dos Erasmos, em São Vicente, possuía 130 escravos “da terra” e sete ou oito africanos. Estes últimos eram todos oficiais, ou seja, especializados em várias tarefas, e um deles era mestre de açúcar, a função mais importante de um engenho."

       Essa divisão do trabalho nos engenhos coloniais entre africanos e indígenas, provavelmente foi utilizada pelos portugueses, por observar a baixa produtividade nas atividades especializadas pelos nativos, fazendo com que o preço médio de um escravo índio fosse muito mais baixo do que um escravo africano.
       Em 1572, enquanto um escravo africano custava em média 25 mil-réis, um escravo indígena com a mesma habilidade, custava cerca de 9 mil-réis. Isso se justifica, pois que, “os africanos, sem dúvidas, eram mais caros para se obter, mas a longo prazo representavam um investimento mais lucrativo.”
       Porém, essa baixa produtividade, não se devia como conta Schwartz, à incapacidade indígena de aprender determinadas tarefas. Ele relata que:

"Muitos negros provinham da África ocidental, de culturas em que os trabalhos com ferro, gado e outras atividades úteis para lavoura açucareira eram praticados. Esses conhecimentos e a familiaridade com a agricultura a longo prazo tornava-os mais valiosos para os portugueses na escravidão especifica da indústria do açúcar. (...) as semelhanças de sua herança cultural com as tradições européias valorizavam-nos aos olhos dos europeus."

       Talvez, a baixa produtividade indígena pode ser explicada pela a não adaptação destes, à lógica de trabalho português, como lembra bem Schwartz, numa observação do historiador e senhor de engenho, Rocha Pita:

“Por obrigação e não voluntariamente como usavam na sua liberdade, que na perda dela e na repugnância e pensão do cativeiro morrendo infinitos, vinha a sair mais caro pelo mais limitado preço”.

      Apesar da visão etnocêntrica de Caio Prado Júnior ao discutir sobre esse assunto, ele pensa de forma semelhante à Rocha Pita, ao explanar sobre a adaptação indígena à lógica de trabalho europeu: “É que, [...] o índio brasileiro, saindo de uma civilização muito primitiva, não podia adaptar-se com a necessária rapidez ao sistema e padrões de uma cultura tão superior à sua, como era aquela que lhes traziam os brancos.”         Contudo, a teoria da baixa produtividade indígena não explica completamente a migração da força de trabalho escrava predominante na colônia, da indígena para africana, pois, como já foi citado, os colonos não se opuseram à utilização dos índios como força de trabalho escrava, assim como também, os próprios colonos, contestaram por muito tempo as decisões régias que proibiam os apresamentos de nativos, demonstrado seus interesses em relação a estes.
      Dentre as várias teorias existentes sobre esse assunto, por último, vamos discutir sobre a que entende que o tráfico de escravos só existiu por causa da sua importância na acumulação de capital no mercado europeu, sendo assim, um dos mecanismos principais da máquina econômica colonial.
      Para que a acumulação de capitais fosse eficiente, deveria ser necessária a utilização de uma força de trabalho que não dispersasse os recursos coloniais. Portanto, a mão-de-obra escrava foi a escolhida.
      Sendo assim, Fernando Novais esclarece que:

"O que talvez tenha importado é a rarefação demográfica dos aborígenes, e as dificuldades de seu apresamento, transporte, etc. Mas, na “preferência” pelo africano revela-se, cremos, mais uma vez,, a engrenagem do sistema mercantilista de colonização; esta se processa, repitamo-lo tantas vezes quantas necessárias, num sistema de relações tendentes a promover a acumulação primitiva na metrópole."

      Em relação a acumulação de capital, Fernando Novais lembra também que:

"Não bastava produzir os produtos com procura crescente nos mercados europeus, era indispensável produzi-los de modo a que sua comercialização promovesse estimulo a acumulação burguesa nas economias européias. Não se tratava apenas de produzir para o comércio, mas para uma forma especial de comércio – o comércio colonial; é mais uma vez, o sentido último (aceleração da acumulação primitiva de capital), que comanda todo o processo da colonização."

       Além disso, Fernando Novais explica, que a utilização dos indígenas como força de trabalho na colônia, fazia com que o capital acumulado nas negociações entre escravos ficasse na colônia, enquanto que, nas negociações entre “peças” africanas, esse capital ficaria na metrópole. Ele diz:

"O tráfico negreiro, isto é, o abastecimento das colônias com escravos, abria um importante setor do comércio colonial, enquanto o apresamento dos indígenas era um negócio interno da colônia. Assim, os ganhos comerciais resultantes da preação dos aborígenes mantinha-se na colônia, com os colonos empenhados nesse “gênero de vida”; a acumulação gerada no comércio de africanos, entretanto, fluía para metrópole, realizavam-na os mercadores metropolitanos, engajados no abastecimento dessa 'mercadoria'."

      Para Fernando Novais, “é a partir do tráfico negreiro que se pode entender a escravidão africana colonial, e não o contrário.” No entanto, Ciro Flamarion Cardoso discorda dessa forma de pensar o tráfico.
      Para Ciro Flamarion, as várias dificuldades enfrentadas pelos colonos é que foi responsável pela intensificação da importação da mão-de-obra escrava vinda do continente africano. Ele ressalta:

"A transição gradual a um tráfico africano mais intenso deu-se em função de características, dificuldades e necessidades intrínsecas da economia colonial do açúcar em evolução, a qual preexistiu claramente a uma importação maciça de cativos africanos; o contrário não é verdade: não vemos o fluxo do tráfico “gerando” uma economia colonial açucareira."

       Essas “características, dificuldades e necessidades intrínsecas”, que o autor se refere, foram discutidas aqui, quando falamos da experiência portuguesa com a escravidão ainda na Idade Média, da escassez de mão-de-obra, da baixa produtividade e da mortandade indígena, dentre outras.
       Entretanto, Ciro Flamarion entende o quanto o tráfico de escravos foi importante para a expansão do comércio europeu ao longo da colonização, ao explicar:

"Independente de tais divergências interpretativas, o fato é que a colonização da América esteve indubitavelmente vinculada á expansão comercial e marítima da Europa, na época em que a constituição de um mercado mundial – pela primeira vez na história – dava seus primeiros passos."

       Em linhas gerais, podemos perceber que, além da importância do tráfico para a acumulação primitiva do capital europeu, outros fatores foram também responsáveis pela utilização do cativo africano em larga escala em terras coloniais da América portuguesa.
       Todavia, percebe-se que, ao longo das últimas décadas, a maioria dos especialistas em escravidão colonial, tenta utilizar “esse” ou “aquele” argumento como componente primordial para entender as estruturas criadas em relação ao lucrativo tráfico de almas vindas do continente africano.




REFERÊNCIAS:

 
ALENCRASTRO, Luiz Felipe de. O Trato dos Viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul – Séculos XVI e XVII. São Paulo: Cia das Letras, 2000.

CARDOSO, Ciro F. S. A Afro-América: A escravidão no Novo Mundo. São Paulo: Editora Brasiliense 1ªed. 1982.

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. 34. ed. São Paulo: Companhia das letras, 2007.

JÚNIOR, Caio Prado. História Econômica do Brasil. 26. ed. São Paulo: Ed. Brasiliense.

MENARD, Russel; SCHWARTZ, Stuart B. História Econômica do período Colonial. In: SZMRECSÁNYI, Tamás (Org.). Por que a escravidão africana? A transição de trabalho no Brasil, no México e na Carolina do Sul. São Paulo: Hucitec/ Associação brasileira de Pesquisadores em História econômica/Editora da Universidade de São Paulo/ Imprensa Oficial, 2002.

NOVAIS, Fernando. Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial. São Paulo: Hucitec, 1989.


RIBEIRO, Darcy. O Povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das letras, 2006.

SCHWARTZ, Stuart B. Segredos Internos: engenhos e escravos na sociedade colonial, 1550-1835; tradução Laura Tei-xeira Motta. São Paulo: Companhia das letras, 1988.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O Ofício do Historiador e o diálogo com a Antropologia


O OFÍCIO DO HISTORIADOR E O DIÁLOGO COM A ANTROPOLOGIA





Wagner Aragão Teles dos Santos[1]



Resumo: Este presente trabalho aborda o ofício do historiador a partir da interdisciplinaridade da pesquisa historiográfica. Demonstrando a importância de outras ciências para interpretação da trajetória humana no passado, tendo as discursões entre História e Antropologia no centro deste estudo.

Palavra-Chave: História, Historiografia, Antropologia, Interdisciplinaridade



O estudo da história ao longo dos últimos séculos tem passado por uma revolução significativa no que se refere à pesquisa e suas infinitas ferramentas que foram sendo agregadas com o passar dos tempos.
Por muito tempo a história foi contada como narrativas de fatos considerados importantes por historiadores que nos antecederam.
A história política, a história dos grandes homens, dos grandes acontecimentos, por muitos séculos, foram os temas em que os historiadores mais deram importância.
Na Grécia Antiga, por volta de 440 a.C. o pai da história, Heródoto de Halicarnasso, privilegiou a guerra dos gregos contra os persas em sua obra, As Histórias de Heródoto. Tucídides mais tarde, narra a história da guerra de Atenas contra Esparta no livro, A História do Peloponeso. No império Romano, Suetônio foi apenas um de muitos historiadores de sua época que dá ênfase a história dos imperadores, fazendo um grande estudo para escrever A vida dos doze césares. Livro que conta com detalhes a vida dos doze primeiros Cezares.
No século XIX a escola metódica acreditava que o documento falava por si só. Procuravam se afastar de interpretações que pudessem ser dadas aos documentos, pois, para eles, os documentos oficiais expressavam a verdade histórica dos fatos.
Poderíamos escrever sobre várias formas de se produzir trabalhos historiográficos ao longo dos séculos, para perceber os avanços ocorridos em cada período no que se refere à pesquisa nessa área. Um exemplo disso é o que Marc Bloch, um dos maiores historiadores do século XX, diz:[2] “Mesmo permanecendo pacificamente fiel ao seu glorioso nome helênico, nossa história não será absolutamente, por isso, aquela que escrevia Hecateu de Mileto”. Demonstrando com isso, as várias “caras” da história ao longo dos séculos.
 No entanto, vamos dar um salto até o século XX para falar do movimento que, nas palavras de Peter Burke, fez a “Revolução Francesa da Historiografia Francesa”.[3]
Estamos falando da Escola dos Annales. Movimento que surge com o nascimento da revista Annales d’histoire économique et sociale em 1929, liderada por um especialista no século XVI, Lucien Febvre e o já citado, medievalista Marc Bloch.
Entre inúmeros avanços em relação à pesquisa na área de História, uma das principais contribuições dessa corrente historiográfica foi mostrar a possibilidades do diálogo do historiador com outras ciências ao se pesquisar o passado.
A partir desse principio vamos discorrer sobre a importância da Antropologia no ofício do Historiador contemporâneo e a importância da História na pesquisa antropológica, tendo como base o artigo de Lilian Schwarcz, Questões de Fronteiras Sobre uma Antropologia da História e o livro de Cliffford Geertz, A Interpretação das Culturas.
Em seu estudo, Lilian coloca em pauta as várias discursões sobre a importância da história em relação à pesquisa na área da Antropologia.
Segundo Lilian, alguns antropólogos acreditavam que determinadas sociedades “primitivas” na tinha história e por tanto, eram “fósseis” vivos. E que a partir do estudo dessas sociedades no presente poder-se-ia dizer algo sobre o seu passado.
O historiador Varnhagen, conhecido por ser um dos primeiros a escrever sobre a formação da sociedade brasileira, cita: “de tais povos na infância não há História: há só etnografia.” Se referindo às populações indígenas no Brasil. Demonstrando, segundo ele, a impossibilidade de se escrever a história dessas sociedades.
 Com isso, muitos antropólogos, para se afastarem das teorias evolucionistas defendidas por alguns historiadores, resolvem utilizar  apenas o “modelo diacrônico” em seus estudos. Contudo, Lilian explica que, que Franz Boas, defensor desse método de investigação, não conseguiu encontrar história tendo como base apenas a etnografia.
Todavia, sabemos, que toda sociedade tem sua história. E que a partir das infinitas ferramentas metodológicas utilizadas pelo pesquisador podemos estudar boa parte desse passado com o mínimo de vestígio. Pois, a arqueologia e a história oral, por exemplo, podem auxiliar nesses estudos, encontrando respostas onde apenas o olhar do etnógrafo não foi capaz de encontrar.
Na metade do século passado trava-se uma “batalha” entre antropólogos e historiadores para se definir a área de atuação de cada disciplina. Segundo Redcliffe-Brown: “ao etnógrafo destina-se o conhecimento direto, fruto da observação dos povos que estuda; já os historiadores se limitam aos arquivos.” Deixando evidente para ele qual é o  objeto de estudo de cada uma das duas disciplinas.
Começa-se então, tentar definir a área de atuação de cada uma das ciências. O próprio Lévi-Strauss explica que, “enquanto o historiador se debruça sobre muitos documentos, o antropólogo observa apenas um”. Porém, Evans-Pritchard, demonstrar menos rigidez nesse racha entre a história e a antropologia ao afirmar que, “o fato de os antropólogos estudarem pessoas em primeira mão, e os historiadores através de documentos, era apenas uma questão técnica”.
            Evans-Pritchard, já na década de 50 do século passado, chega a conclusão de que mesmo sendo área da antropologia as sociedades contemporâneas, seria impossível ignorar a história. Ele diz:

O conhecimento do passado leva a uma compreensão mais profunda da natureza da vida social no presente. A história não é mera sucessão de eventos, mas sim a relação entre eles; seu processo de desenvolvimento.
O passado está contido no presente como este no futuro.


A partir das analises de Pritchard podemos chegar à conclusão de que a história e a antropologia não são ciências tão diferentes uma da outra. Apenas metodologias diferentes ao se pesquisar, sendo que, uma pode precisar da outra em suas pesquisas separadamente.
Clifford Geertz em seu livro, A interpretação das culturas, explica que em Antropologia, o que os seus praticantes fazem é etnologia, ou seja, eles observam a sociedade que está pesquisando.
Um bom historiador, dependendo do que se está pesquisando, não faz muito diferente, pois, o historiador deve também observar através dos documentos o comportamento, as relações sociais e os traços culturais de uma determinada sociedade.   A diferença é que o historiador busca as respostas do passado através dos vestígios deixados nos documentos. Sejam eles, documentos oficiais do Estado ou não, como também, documentos iconográficos por exemplo.
Poder-se-ia contestar a eficiência dessa metodologia no estudo de uma determinada sociedade no passado, pois, o historiador não teria convivido com ela para entender os vários signos existentes, que possibilitasse melhor compreensão.
Esse mesmo tipo de questionamento, mas, voltado à antropologia, Geertz responde, ao explicar sobre o estudo através de textos antropológicos. Ele ressalta que apenas um nativo poderia fazer uma interpretação em primeira mão de uma determinada sociedade, pois, ele está inserido nela. Apenas ele, o nativo, é capaz de interpretar todas as redes de significados existentes em sua sociedade.[4]
Mas isso não impede o antropólogo de tentar entender os signos existentes nessas sociedades através das observações. Da mesma forma que o historiador não pode se privar de tentar entender esses signos através dos documentos que ele está estudando.
Um bom exemplo disso é o relato tirado do diário de campo de Geertz, em que ele conta sobre o desentendimento gerado entre franceses, um judeu e um pequeno grupo Marmusha, nas montanhas do Marrocos central em 1912.[5]
Mesmo vivendo na região, os franceses não tinham acesso à variedades de códigos sociais existentes entre as tribos locais, o que levou a condenar o judeu Cohen por traição.
Por outro lado, Cohen, por já ter conhecimento dessas redes de significados, foi atrás de seu ressarcimento por ter sido roubado e ter pessoas próximas mortas, e voltado com seu rebanho. Assim como Cohen, a boa observação etnográfica feita por Cliffod Geertz, fez com que ele, através de suas observações e anotações, tenha decodificado esses signos para poder interpretar.
É evidente também, que o historiador apenas com seus documentos escritos, não teria como fazer “descrições densas” de traços culturais e comportamentais de uma determinada sociedade no passado como um etnólogo faz no presente. No entanto, nada o impede de tentar observar, seja através dos documentos escritos, ou com o auxílio da história oral ou a iconografia; como também, com as metodologias utilizadas pelas ciências antropológicas e sociológicas, para com isso ampliar seu olhar sobre a pesquisa..
Foi o movimento dos Annales, que, além de impedir que a história fosse descartada pela antropologia, possibilitou também, que ela dialogasse com outras ciências, inclusive a própria antropologia. Criando assim, uma interdisciplinaridade entre as ciências, na busca de respostas para nossas inquietudes.
Peter Burke demonstra no fim do seu livro, A Escola dos Annales, que essa, é para ele também, a maior contribuição no campo da história[6]:

Da minha perspectiva, a mais importante contribuição do grupo dos Annales, incluindo-se as três gerações, foi expandir o campo da história por diversas áreas. O grupo ampliou o território da história, abrangendo áreas inesperadas do comportamento humano e a grupos sociais negligenciados pelos historiadores tradicionais. Essas extensões do território histórico estão vinculadas à descobertas de novas fontes e ao desenvolvimento de novos métodos para explorá-las. Estão também associadas à colaboração com outras ciências, ligadas ao estudo da humanidade, da geografia à lingüística, da economia à psicologia. Essa colaboração interdisciplinar manteve-se por mais de sessenta anos, um fenômeno sem precedentes na história das ciências sociais.
  
Hoje, portanto, devemos ter consciência que, para ser um bom historiador deve ser também, no mínimo, um bom antropólogo e sociólogo. E bons antropólogos e sociólogos devem também ser bons historiadores. Pois, apenas com a interdisciplinaridade dessas ciências poderemos chegar mais perto das respostas que almejamos em nossas pesquisas.







REFERÊNCIAS:


SCHWARCZ, Liilia K. Moritz. “Questõs de Fronteiras: Sobre uma Antropologia da História”. In: Novos Estudos CEBRAP, n.72, Julho 2005, PP. 119-135.

GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: Editora LTC, 1989, 323p.

SILVA, Kalina Vanderlei, SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de Conceitos Históricos. São Paulo: Contexto, 2006.


BURKE, Peter. A Escola dos Annales- 1929-1989: a Revolução Francesa na Historiografia. São Paulo: Ed. UNESP, 1991.

BLOCH, Marc. Apologia da História, ou, O Ofício do Historiador . Rio de janeiro: Jorge Zahar. Ed. 2001.



[1] Wagner Aragão Teles dos Santos é graduado em Licenciatura em História. Centro Universitário Jorge Amado.
[2] BLOCH, Marc. Apologia da História, ou, O Ofício do Historiador . Rio de janeiro: Jorge Zahar. Ed. 2001.

[3] Burke, Peter. A Escola dos Annales (1929-1989): a Revolução Francesa da Historiografia. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1997.
[4] GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Editora LTC, 1989. 323p.
[5] Idem.
[6] BURKE, Peter. A Escola dos Annales- 1929-1989: a Revolução Francesa na Historiografia. São Paulo: Ed. UNESP, 1991.


sábado, 12 de fevereiro de 2011

A Escola Dos Annales

 A Escola dos Annales foi responsável por uma verdadeira revolução na historiografia. A partir dela a história não era mais simplesmente a narrativa de fatos como era feita pelos “positivistas”. Para esse novo grupo, até os documentos oficiais, que antes eram reproduzidos sem uma análise, diziam mais do que os historiadores que os antecederam poderiam imaginar.
Segundo Peter Burke em A Escola dos Annales, com os Annales a história se abrangeu à estudos de várias estruturas sociais como a economia, a política, a cultura, a religião, etc. Ao trabalhar em conjunto com outras disciplinas ela deu um importante passo para um melhor entendimento da história. Com a antropologia houve uma maior possibilidade de compreender o comportamentos de civilizações antigas, a psicologia contribuiu imensamente nos estudos das mentalidades e assim como outras.
Burke cita que Lucien Febvre dizia: “Historiadores sejam geógrafos. Sejam juristas, também, e sociólogos e psicólogos”.
É claro que esse grupo não fez uma ruptura total na forma de ver a história, por que segundo Burke, Michelet já defendia a “história da perspectiva das classes subalternas”, Fustel de Coulanges dedicava-se à história da religião, da família e da moralidade e o Próprio Leopold Von Ranke se preocupava com a história das Artes, da literatura e da ciência. O que os Annales fez foi ampliar este horizonte à distância até antes nunca imaginada.
            A partir da Escola dos Annales, a história se expandiu, principalmente com a “terceira geração”, quando Christiane Klapisch escreveu sobre a história da família na toscana durante o Renascimento e Michèlet Perrot escreveu sobre a história do trabalho e a história da mulher.
Segundo Peter Burke em A Escola dos Annales os historiadores anteriores dos Annales haviam sido criticados pelas feministas por deixarem a mulher fora da história.  Ele também diz que na terceira geração, Geoges Duby e Michèlet Perrot se empenharam em organizar uma história da mulher em vários volumes.
Na década de 1960, Philippe Áries, através de cartas, diários e registros iconográficos escreveu sobre a infância na Idade Média.
Kalina Silva e Maciel Silva deixam claro no Dicionário de Conceitos Históricos que a valorização dos estudos das mentalidades pelos Annales marcou uma grande mudança historiográfica, pois ampliou de modo considerável não apenas o mercado de consumidores de História, mas as fontes e os temas trabalhados pelos historiadores: ”Desde então, tudo se transformou em fonte: diário, lendas, sonhos”. (pág. 280).
Hoje conhecemos um pouco do comportamento de vários grupos sociais da Idade Média, por exemplo, por conta da pluralidade de estudos dos Annales nesse período. .Isso mostra a diversidade dos estudos da Escola dos Annales, tentando abranger áreas ainda não estudadas profundamente.




REFERÊNCIAS: Burke, Peter. A Escola dos Annales (1929-1989): a revolução francesa da historiografia; São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1997.

Silva, Kalina Vanderlei e Silva, Maciel Henrique. Dicionário de Conceitos Históricos. 2. ed. São Paulo. Contexto, 2006.